Copa do Mundo para quem? Reflexão sobre acessibilidade nos jogos

Copa do Mundo para quem Reflexão sobre acessibilidade nos jogos

A Copa do Mundo chegou! Uma alegria e experiência única a cada 4 anos.

Tivemos nosso primeiro jogo, um resultado que talvez tenha sido um pouco fora do esperado: empate em 1 a 1 com o Marrocos, com atuação fraca, mas com belo gol de Vini Junior. Mas, na verdade, o que eu quero conversar com vocês hoje não é sobre o placar. Quero falar sobre a experiência de assistir aos jogos.

Nas últimas semanas, vimos muitas discussões sobre o famoso “delay” das transmissões. Quem assiste por streaming costuma receber a imagem alguns segundos depois da TV aberta. Tem gente reclamando porque o vizinho grita “gol” antes da bola entrar na sua tela. Alguns bares chegaram até a sincronizar os equipamentos para evitar diferenças entre as transmissões. Alguns disseram que, ao assistir pelo celular, o delay estava bem menor.

A ordem normalmente é essa: TV aberta com menos atraso, seguida por algumas TVs por assinatura e, depois, os serviços de streaming.

Mas existe um outro tipo de delay que quase ninguém comenta: o atraso que ainda existe quando falamos de acessibilidade e inclusão.

Você já parou para pensar como uma pessoa com deficiência assiste a uma Copa do Mundo?

Eu brinco que, para mim, muitas vezes existe pouca emoção (sonora) envolvida. Como sou uma pessoa surda, não escuto a narração, não acompanho os comentários da torcida e também não ouço aquela sequência interminável de xingamentos e as vaias ao juiz ou aos jogadores. Dependendo do contexto, a experiência acaba sendo apenas a de observar pessoas correndo atrás de uma bola. Tanto que, para muitos surdos, ver jogos de Copa do Mundo ou qualquer esporte costuma ser uma atividade “solitária”: ou olhamos para a tela, ou lemos os lábios ou gestos.

E quem tem baixa visão?

Esses dias assisti a uma partida projetada em um telão e tive dificuldade para diferenciar as cores dos uniformes do Brasil e do Marrocos. Como tenho retinose pigmentar, precisei me aproximar bastante para conseguir entender o que estava acontecendo em campo. Para pessoas com baixa visão, as dificuldades podem ser ainda maiores, especialmente em relação à percepção de profundidade e à identificação de detalhes à distância.

Além disso, pretendo entrevistar pessoas daltônicas para compreender outras experiências de visualização, já que a distinção entre determinadas cores pode representar um desafio adicional. Outro aspecto importante é que, em painéis muito grandes, muitas vezes não consigo enxergar todas as informações ao mesmo tempo, precisando “caçar” as informações na tela para compreender o conteúdo apresentado.

E uma pessoa cega? Em um ambiente cheio de conversas paralelas, música, barulho e comemorações, será que ela consegue acompanhar a partida de forma confortável? Será que prefere assistir em casa, com seus próprios recursos de acessibilidade? Ou gosta da experiência coletiva, desde que o ambiente seja preparado para isso?

E as pessoas autistas?

Quando o Brasil faz um gol, parece que o mundo explode. Gritos, buzinas, rojões, fogos de artifício e uma infinidade de estímulos sensoriais ao mesmo tempo.

Aliás, vale a reflexão: fogos de artifício não são um problema apenas para pessoas autistas. Eles também afetam idosos, bebês, pessoas com hipersensibilidade sensorial e animais. Talvez possamos encontrar formas mais inclusivas e respeitosas de comemorar.

Um amigo autista me contou algo que me marcou bastante: às vezes ele prefere que não saia gol, justamente para evitar a avalanche de barulho que vem logo depois.

E as pessoas com deficiência física?

Quando todo mundo levanta ao mesmo tempo para comemorar, como fica a experiência de quem utiliza cadeira de rodas? Como é enxergar o jogo quando todas as pessoas à sua frente estão de pé?

E nos intervalos? Quando centenas de pessoas correm para o banheiro ou para a fila do bar, será que existe espaço para circulação? Será que a acessibilidade continua funcionando quando o local está lotado?

São perguntas simples, mas que raramente fazemos.

O mais interessante é que essa discussão vai muito além da Copa do Mundo.

Ela fala sobre shows, festivais, eventos corporativos, feiras, congressos, apresentações culturais e qualquer outro espaço coletivo. Afinal, acessibilidade não é apenas entrar em um lugar. É conseguir participar da experiência de forma plena.

E estamos falando de um público que não é pequeno. Segundo dados preliminares do Censo 2022 divulgados pelo IBGE, o Brasil possui 14,4 milhões de pessoas com deficiência, o equivalente a 7,3% da população com dois anos ou mais. Além disso, foram identificadas 2,4 milhões de pessoas diagnosticadas com Transtorno do Espectro Autista.

Mesmo assim, pesquisas mostram que as barreiras continuam presentes. Um estudo sobre acessibilidade em eventos esportivos apontou que mais de 80% dos respondentes acreditam que os eventos esportivos realizados no Brasil ainda não são totalmente acessíveis. Não estamos falando de exceções. Estamos falando de milhões de pessoas que querem viver as mesmas experiências que qualquer outra pessoa.

Por isso, estou começando alguns experimentos. Quero assistir a jogos em bares, espaços públicos e diferentes ambientes. Quero observar, ouvir relatos, testar recursos e entender melhor como cada deficiência impacta essa experiência. Meu objetivo é mapear essas vivências e, a partir delas, ampliar a discussão para outros contextos.

Nós, pessoas com deficiência, não queremos apenas acesso. Queremos pertencimento. Queremos estar nos mesmos lugares, participar das mesmas celebrações e viver as mesmas emoções.

Então fica o convite.

Vamos fazer esse rolê juntos(as)? Vamos contar essas histórias juntos(as)? Quem tiver histórias, por favor, me mande. Quero conhecer histórias, experiências, dificuldades e soluções. Quero aprender com pessoas com deficiência e construir esse olhar coletivamente.

Talvez, quando começarmos a enxergar a Copa e o mundo por diferentes perspectivas, descubramos que a verdadeira inclusão não acontece quando abrimos espaço para alguém entrar.

Ela acontece quando pensamos nesse espaço desde o início para que todos(as) possam pertencer.


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