Benício era um menino muito feliz. Todos riam de suas histórias e se encantavam com seu charme. Sabe aquela pessoa que você olha e parece que flutua de tão leve? Benício era assim. Estava sempre contemplando a paisagem, brincando com as sombras, desenhando… Mas não raro, alguém chamava sua atenção. Talvez porque as coisas escapassem da sua mão, o guarda-chuva ficava no ônibus, o carrinho embaixo do sofá ou porque não se lembrava onde deixava o caderno.
Avoado? Ele dizia que seu olhar se perdia nas possibilidades. Uma borboleta que passa, Benício já não sabia o que foi fazer na cozinha; um homem passa na rua e ele o avista pela janela, esquece que parte estava na lição de casa.
E assim foi crescendo e levando cada vez mais broncas de suas trapalhadas e distrações. O olhar de poesia era substituído por um olhar de investigador, atento e preocupado. Ele queria fazer tudo certo e isso lhe custava. Prestava atenção, anotava tudo, estava sempre tenso. Mas vês ou outra, alguma coisa dava errado. E todo mundo a sua volta, lembrava: “Benício, como você é atrapalhado!”
Não raro, faziam brincadeira do jeito dele. Mesmo sem gostar, dava um sorriso tímido para ver se mudavam de assunto. Parece que quanto mais Benício tentava fazer as coisas direito, mais ele ficava aflito e mais trapalhadas aconteciam. E ele ficava mais triste. Uma tristeza que às vezes transbordava. Enchia seu peito e seus olhos. Então, Benício chorava. Ele achava que desapontava aqueles que ele mais amava.
E com isso, Benício já não era mais o mesmo menino feliz que fazia piadas engraçadas e divertia a todos. Era como se viesse uma sombra no seu coração que assombrava cada vez que ele ia fazer algo só para lembrar o quão atrapalhado ele era. E isso era tudo que ele queria deixar de ser.
Benício foi crescendo. Teve que assumir cada vez mais responsabilidades. Arrumar o quarto, estudar, ajudar no jantar. Aos poucos, foi se organizando e organizando melhor as coisas. Anotava para não esquecer das lições, dos prazos e das tarefas. Ele fazia de tudo para não parecer atrapalhado. Quanta energia ele tinha que colocar naquilo! Era mais do que só se organizar, era tentar não ser ele. Chegava no fim do dia, ele estava morto de cansaço de tanto que ele se policiava para fazer tudo certinho.
Com o tempo, ele foi se acostumando, “melhorando”, e percebeu que tudo ia funcionando bem. Ele estava sempre um ponto antes dos outros. Chegava na hora, não esquecia as lições, poucas coisas eram deixadas fora do lugar. Apesar de tudo estar “certo”, Benício se tornou um menino não-feliz. Não é que ele fosse triste, mas estava sempre pensando naquela sombra que cobria seu coração quando as pessoas achavam que ele era atrapalhado.
Deixou de ser espontâneo e, com isso, já não era engraçado. Ele viu que mesmo conseguindo tudo que queria não era realmente mais ele. Todo aquele esforço para não ser atrapalhado tinha tirado a graça, o charme e a essência do Benício. Ele se preocupava tanto com os outros, que esqueceu dele mesmo. Se sentia orgulhoso por conseguir se organizar, mas ele queria ser de volta aquele menino feliz e espontâneo que sempre foi.
Benício então pensou, pensou, pensou e logo descobriu. Ele decidiu perdoar no seu coração todas as pessoas que tinham chamado ele de atrapalhado. Mesmo isso tendo sido muito doloroso para ele, ele entendeu que elas não queriam machucá-lo e não sabiam o quanto isso o deixava triste e ansioso. E perdoou a si mesmo por se cobrar tanto para corresponder a algo que não lhe fazia bem. Ele fechou os olhos e pensou em coisas doces para todas as pessoas. E num suspiro, abriu os olhos, aliviado. Passou a fazer isso sempre que alguém o chamava de atrapalhado ou quando algo acontecia e ele voltava a se sentir triste.
Benício voltou a ser feliz, tentou relaxar um pouco e, com leveza, aceitou as trapalhadas que vieram. Agora, já tinha aprendido a se organizar e podia balancear os momentos que realmente exigiam mais esforço e atenção e aqueles que podiam perder-se contemplando os pássaros cantarem. Afinal, ri melhor quem ri de si, não é verdade?
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