No Dia dos Povos Indígenas, lembrar os Puri é enfrentar um apagamento histórico e reconhecer que seguimos vivos em uma região que ainda conta sua história de forma incompleta.
Em 19 de abril, o Brasil é convidado a refletir sobre os povos indígenas. Essa reflexão só faz sentido ao abandonar a velha imagem genérica e folclorizada com que o país, por tanto tempo, tentou enxergar essas presenças. A adoção oficial do nome Dia dos Povos Indígenas aponta justamente nessa direção: reconhecer povos vivos e contemporâneos, em todas as suas diversidades.
Essa mudança de olhar é necessária sobretudo onde o apagamento se tornou mais naturalizado. Em grande parte do imaginário brasileiro, a presença indígena ainda é empurrada para longe das cidades, para longe do presente e, muitas vezes, até para longe do Sudeste. Como se a história de certas regiões pudesse ser contada apenas pela colonização, pela urbanização e pela memória de suas elites, sem os povos originários como parte dela.
É nesse ponto que a história do povo Puri exige atenção. Os Puri fazem parte da história ancestral de uma vasta região do território brasileiro, ligada a áreas que hoje atravessam Minas Gerais, Rio de Janeiro, Espírito Santo e São Paulo. Ainda assim, durante muito tempo, fomos empurrados para uma narrativa de desaparecimento. O que houve, porém, não foi ausência. Houve violência, deslocamento, catequização, perda de território, silenciamento e apagamento. Houve ainda a tentativa de fazer parecer que um povo inteiro tinha desaparecido.
Essa ideia de extinção não foi apenas um erro de interpretação. Em muitos casos, essa ideia continuou a violência por outros meios. Um povo não é atacado só quando perde território, é disperso ou sofre perseguição direta. Também nos ferem quando nos tratam como se já não existíssemos. Ferem quando tentam tornar nossa continuidade impossível, ilegítima ou invisível. O discurso, o documento, a escola, a negação de direitos e o silêncio podem participar desse processo.
Por isso, falar do povo Puri em 19 de abril não é apenas revisitar uma injustiça antiga. É perceber que o apagamento continua toda vez que a sociedade conta a própria história pela metade. Durante muito tempo, a história ensinada e repetida em espaços públicos ajudou a empurrar os povos indígenas para um passado remoto, como se o país moderno tivesse surgido depois deles, e não apenas sobre seus territórios, suas presenças e suas resistências. Corrigir isso é dizer a verdade sobre a história do território em que vivemos.
No caso Puri, essa correção passa por reconhecer a força do que permanece. Hoje, o que se vê é um movimento de retomada da memória, da identidade, da cultura e da língua, conduzido pelos próprios indígenas. É a continuidade de um povo que seguiu existindo apesar de séculos de pressão para desaparecer. Onde tentaram nos calar, seguimos nos organizando, pesquisando nossa própria história, reconstruindo vínculos, fazendo circular nossas narrativas e ocupando o espaço público.
Isso importa muito além do próprio povo Puri. Quando a presença indígena é empurrada para fora da memória coletiva, um povo inteiro perde reconhecimento. Mas essa não é a única consequência: a sociedade inteira passa a entender a própria história de forma empobrecida. Ela perde profundidade histórica e a chance de compreender melhor o território em que vive. Uma região que apaga seus povos originários apaga também parte de si mesma.
Este não precisa ser um texto de desalento. A história não terminou onde disseram que terminaria. Ela segue nas comunidades que reconstroem a memória, reabrem caminhos para a língua, fortalecem vínculos e reafirmam sua existência com dignidade. E segue também quando o país começa, ainda que lentamente, a escutar o que por tanto tempo preferiu não ouvir.
Neste Dia dos Povos Indígenas, lembrar o povo Puri é recusar um silêncio antigo. É reconhecer que houve tentativa de apagamento, mas que ela não venceu. E é aceitar que uma história mais verdadeira do Brasil depende da coragem de enxergar, enfim, as presenças que nunca deixaram de existir.
Somos Puri. E continuamos aqui.
Texto escrito pela Coordenação Colegiada da Tuatuna
Organização indígena do povo Puri, sediada em São PauloPorañ Txori Xambe Puri
Kupan Orutu Puri
Miri Xamun Txori Xambe Puri
Djotana Txori Xambe Puri
Day Poyanawa Puri
Opema Puri
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