A “capacidade psicológica de inovar”​ em tempos difíceis

Por conta da pandemia da Covid-19 estamos adquirindo muitos aprendizados por meio do desamparo, do sofrimento, do medo e da incerteza. Ao mesmo tempo em que precisamos nos desdobrar para dar conta das infindáveis demandas do cotidiano, somos ainda por cima exigidos a criar, inventar, transformar e inovar.

A capacidade psicológica de inovar envolve algumas dimensões:

– consciência dos fatores familiares que influenciam a nossa habilidade para inovar.

– clareza sobre os obstáculos emocionais que alimentam a resistência para inovar.

– identificação das nossas habilidades para inovação.

– percepção das próprias emoções ao longo da experiência de inovação.

– construção de ambientes psicológicos facilitadores para inovação

Diante de um contexto tão desafiador ditado pela pandemia é possível manter a capacidade psicológica de inovar diante de tanta pressão?

Uma das características emocionais em momentos de adversidades é o estado de alerta emocional imposto às pessoas. Ficamos constantemente em uma condição de prontidão caso seja necessário agir para garantir a nossa sobrevivência física e/ou psicológica.

O estado de alerta consome uma quantidade enorme de energia psíquica e até altera nossos níveis hormonais. Cansaço profundo, preocupação crônica, falta de flexibilidade de pensamento, dificuldade de verbalizar as emoções e irritabilidade são alguns exemplos das consequências do estresse excessivo em nosso organismo. Quais seriam os impactos deste constante estado de alerta na nossa capacidade de inovar?

Para muitas pessoas o permanente estado de prontidão mata qualquer possibilidade de inovar, mudar, empreender e se reinventar. Desenvolver e acessar a capacidade psicológica de inovar sob o domínio desse estado de alerta representa um desafio e tanto. Quando o momento de crise se estende por muito tempo, é preciso lidar com sucessivas situações que exigem de nós ações rápidas e tomadas de decisões difíceis por um longo período.

O psicanalista Masud Khan (1963) propôs o conceito de “microtrauma cumulativo” para descrever um tipo específico de trauma psicológico que é resultado das constantes “falhas do ambiente”. No contexto infantil, o “ambiente” se refere às pessoas que cuidam da criança pequena. Na fase inicial da vida, o bebê é totalmente dependente do adulto e, além de ser alimentado e cuidado, ele precisa viver em um ambiente emocional seguro para se desenvolver de forma adequada. Dessa maneira, o ambiente familiar funciona como escudo protetor durante a infância e quando ele não é eficiente a criança fica vulnerável. A falta frequente de respostas adequadas dos cuidadores em relação às necessidades da criança gera pequenos traumas consecutivos que interrompem a continuidade do desenvolvimento saudável deste bebê.

O mundo onde vivemos é o nosso ambiente maior e quando ele se torna ameaçador ficamos desprotegidos. Neste contexto, inovar se torna uma missão árdua. Aqui podemos fazer uma ligação entre o conceito de microtrauma cumulativo proposto por Khan e os pequenos estresses cotidianos vividos ao longo de uma jornada para inovação. Seja para implementar uma metodologia inovadora em uma escola, para desenvolver um novo produto em uma empresa ou para empreender um negócio, a experiência de inovar pode gerar pequenas e invisíveis tensões que secam o nosso tanque emocional. Estes microtraumas cumulativos podem afetar diretamente a capacidade psicológica de inovar e alimentar as nossas resistências para inovação. Em um dos capítulos do livro “Psicologia da Inovação: o que está por trás da capacidade de inovar” (ed. FIAP) aprofundo o tema da Psicologia da Resistência à Inovação, mostrando algumas dimensões que contribuem para a nossa dificuldade de inovar.

A boa notícia é que, dependendo de como as adversidades e o sofrimento são gerenciados pelas pessoas, eles também podem ser trampolins potentes para inovação. O conceito de “crescimento pós-traumático” nos ilumina nesse sentido e mostra a capacidade do ser humano de amadurecer e evoluir a partir de situações traumáticas. “Crescimento pós-traumático” se refere à mudança positiva que o indivíduo experimenta como resultado de um processo de luta diante de vivências traumáticas (Calhoun & Tedeschi, 1999). Esta mudança melhora as relações interpessoais, a percepção de si mesmo e o desfrute da vida.

O crescimento como consequência dos episódios de crise é o melhor legado que podemos deixar para nós mesmos e para a sociedade. Ser capaz de inovar em momentos difíceis exige uma gestão psicológica da inovação que possibilita o alívio da pressão e torna a experiência de inovar mais leve. Desta forma será possível acolher a complexa engrenagem psicológica ligada à inovação, amadurecer com menos sofrimento e ter esperança para desbravar novos horizontes.

Referências:

– CALHOUN, L. G.; TEDESCHI, R. G. Facilitating Posttraumatic Growth: A Clinician’s Guide. London: Lawrence Erlbaum Associates, 1999

– KHAN, M. The Concept of Cumulative Trauma. In: KOHON, G. (ed.). The British School of Psychoanalysis: the Independent Tradition. London: Free Association Books, 1963/1986.


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