A Dolores é ótima! Mas só se queixa da saúde

O que sobra na dona Dolores é alegria. Está sempre animada e fazendo piada. É muito difícil vê-la se queixando. Ops. Não! Ela está sempre se queixando da sua saúde. Mas com muito bom humor. “Hoje estou toda crocante. É um tal de estalar joelho…” ou “Dói tudo. Acho que é um problema de junta, sabe? Junta tudo e joga fora” E logo cai na gargalhada. Sua bolsa tem remédio para tudo. Tá com dor de cabeça? Ela tem um comprimido. Tá com tosse? Tem mel spray. Tá com febre? Toma esse analgésico aqui. Comeu muito? Tem antiácido.

Aliás, antiácido é o que mais tem na bolsa da Dona Dolores. Todo fim de tarde, lá vai ela fazer sua caminhadinha na praça – sabe como é, caminhar é bom para manter a circulação – e, inevitavelmente, se encosta na janela da Dona Beta para colocar o papo em dia. Papo vai, papo vem, café sai, café vem… E na casa da Dona Beta sempre tem um bolinho. Mesmo depois de dizer “Ai eu não devo. Minha glicemia, meu colesterol, meu triglicérides”, a Dona Dolores manda ver uma generosa fatia de bolo. Resultado? A despedida é sempre acompanhada por um “Nossa, nem vou jantar hoje”. ou “Hoje, só uma sopinha”.

No caminho de casa, parada obrigatória na farmácia. Sempre tem algo faltando. E lá se vão mais uns minutinhos papeando com o Seu Chagas, o farmacêutico.

– Tudo bem, Dona Dolores?

– Tudo bem, Seu Chagas. Olha, meu reumatismo tá me dizendo que vai chover. O senhor trouxe guarda chuva?

Quando não era previsão meteorológica das juntas da Dona Dolores, o assunto eram os novos medicamentos. Mas a verdade era que a saúde da Dona Dolores era de ferro. Ela reclamava, reclamava, reclamava, mas estava sempre disposta, batendo perna pela cidade e, principalmente, trabalhando como voluntária no hospital das clínicas. Acho que esse papo todo de doença era só uma profunda empatia que tinha pelos pacientes com quem ela passava a tarde lendo histórias.


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