#botenamesa: masculinidade tóxica

Recentemente a ONU, por meio do Pacto Global, lançou a campanha Bote na Mesa, oriunda de uma expressão comum em muitos ambientes, que é sinônimo de atitude, posicionamento forte e determinação. Dizer que é preciso “botar o p@# na mesa”é dizer que é preciso colocar algo que uns têm e outros não, e isso naturalmente nos leva à distinção, discriminação e questões de poder e privilégios. Este texto é resultado de tantos outros que escrevi e apaguei. Gastei horas e mais horas pensando em como falar e me posicionar sobre campanha, mas tudo que eu escrevia ou soava como se eu fosse a última bolachinha do pacote, ou soava um artigo acadêmico mal escrito, daqueles cheios de conceitos inteligentes e vazios sobre coisas recém aprendidas.

Percebi que a única coisa que posso falar com legitimidade é do sentimento de perder privilégios com os quais eu nasci. Porque acho que essa campanha, para muitos homens, será percebida apenas como mais uma perda de privilégios, como a perda da possibilidade de falar o que quiser, sem ser criticado por isso. E perder privilégios é muito ruim, eu pelo menos nunca gostei e não conheço ninguém que tenha gostado.

Bom, para começar, se você acha que você está perdendo privilégios por não poder usar mais usar a expressão “botar o p@# na mesa”, eu quero dizer que você está certo. Essa campanha tem mesmo como efeito secundário tirar privilégios que geram desequilíbrio nas relações. Ou você acha que apenas 19% dos cargos de liderança são ocupados por mulheres no Brasil porque elas não querem ocupar essas posições? E já que você vai mesmo perder privilégios, quero ao menos trazer um ponto de vista que ajude a perceber isso como algo bom. Sim, eu sei que isso soa um pouco “Polyano”, mas não consegui evitar.

Ao longo da nossa evolução, aprendemos a criar certas ilusões, algumas que nos ajudam a viver melhor, outras nem tanto. Uma ilusão que nos ajuda a viver melhor é a de controle. Precisamos acreditar que o amanhã existirá e será mais ou menos como imaginamos para fazer planos, organizar a rotina e viver. Quando algo tira essa ilusão de controle, surgem as ansiedades e medos, basta ver como reagimos aos começos e recomeços da pandemia. Mas há aquelas ilusões que mais atrapalham do que ajudam, em especial a ilusão de separação, que nos faz acreditar que o problema de uma pessoa distante ou desconhecida não nos afetará. Aqui, a pandemia serve novamente como exemplo, e o navio que ficou preso no Canal de Suez é outro bom exemplo. Estamos todos conectados e o que afeta a um afeta o todo. Se as mulheres recebem menos oportunidades nas organizações onde trabalham, de uma forma ou de outra, isso afetará os homens também.

Homens são mais propensos ao alcoolismo, depressão, ansiedade e suicídio, que nada mais são do que sintomas de um sofrimento psíquico e que tem como grande influenciador esse modelo de masculinidade pouco natural. Se conseguirmos abrir mão deste modelo, estaremos automaticamente abrindo mão das obrigações e expectativas que vêm com eles e a vida será um pouco mais leve. Ao menos a minha experiência foi essa.

Quando consegui aceitar algumas mudanças nas relações de gênero estabelecidas na minha vida, percebi que eu poderia ser mais eu mesmo. Por que vamos combinar, não é fácil ser esse homem estereotipado, que não pode chorar, que tem que saber consertar a pia e ter respostas para tudo.

Já que vamos perder privilégios, que ao menos a gente se dê o direito de aproveitar mais a vida, sem pressões ou exigências que não conseguimos ou não queremos atender. É como eu penso ao menos.

Agora imagine a gente podendo ser mais a gente mesmo dentro das empresas onde trabalhamos. Imagine a gente poder pedir ajuda, ou conseguir dizer que não sabe, que estamos com medo de tomar uma decisão… Eu não sei você, mas gosto mais dessa versão, até porque nunca fui esse estilo de homem “Old School” e muitas das minhas angústias dos tempos em que trabalhei em empresas vinham de ter que sustentar uma imagem que não era eu.

E pense no quanto isso seria melhor para as mulheres também, pois uma parte delas provavelmente tenta copiar e se compara a esse modelo artificial de masculinidade para poder pertencer. Imagine as mulheres podendo ser elas mesmas e todos se aceitando como são, sem armaduras ou máscaras. Nossa, agora fui muito “Polyano”, não é mesmo? Mas imagine só…


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