Continuação do Guia prático: mulheres diante da violência

Continuação do Guia prático mulheres diante da violência

Essa é a segunda parte do texto Como Identificar uma Mulher Vítima de Violência?” 

Março, mês em que ampliamos o debate sobre gênero, é também um convite à reflexão sobre como percebemos e reagimos às situações de violência, especialmente aquelas que atingem mulheres e meninas. Com o objetivo de continuar o diálogo sobre essa pauta, traremos aqui a continuação do livro de Lorena Laporte de Melo que traz ferramentas para identificarmos uma mulher vítima de violência.

Questionar suas próprias representações.

Quando fazemos perguntas sobre violência, precisamos estar prontos para receber a resposta, seja ela qual for.

É interessante perguntar-se sobre sua própria relação com a violência, sobre as representações internas que se tem dela. Isso tem efeitos específicos sobre cada pessoa, de acordo com seu percurso de vida, suas experiências pessoais e profissionais que tenham alguma relação com a violência. Essas representações produzem emoções e reações como raiva, exasperação, desprezo e até mesmo aversão. Esse conjunto de emoções que nos atravessam pode gerar atitudes negativas de nossa parte em relação à vítima, como rejeição, julgamento e a banalização da situação dela.

Assim sendo, iniciar ou continuar um processo de introspecção é relevante para identificar as próprias representações da violência e as das pessoas que são vítimas dela, para conscientizá-las e até mesmo compreendê-las, para melhor acolhê-las e apoiá-las.

Representações da violência

Em relação às nossas representações da violência, podemos, então, nos perguntar também:

  • Quais são minhas próprias representações da violência?
  • Eu mesmo já fui vítima de violência? Já testemunhei atos de violência?
  • Que crenças alimento consciente ou inconscientemente sobre a violência?
  • Normalmente eu amenizo a gravidade de certas violências?

“Ah, tudo bem, não teve ato de penetração sexual!”

Representações da pessoa vítima de violência

Em relação às vítimas:

  • O que penso delas? Eu as vejo como frágeis coitadinhas? Como pessoas que não tiveram sorte?
  • Estou categorizando essas vítimas como vítimas certas e vítimas menos certas?
  • Normalmente eu relevo um ato de violência pensando que a vítima contribuiu para isso, por exemplo, porque ingeriu álcool, porque tem uma vida sexual ativa, porque é vista como alguém que gosta de seduzir?

“Mas ela foi para a casa dele bem tarde, o que ela achava que ia acontecer?”

  • Eu penso que a vítima foi imprudente?

“Saindo vestida assim, o que ela esperava?”

  • Inconscientemente, eu questiono a palavra da vítima?

“O quê? Imagina, o Pedro? Melhor amigo dela?”

  • E a falta de consentimento da parte dela?

“Calma, você tem certeza de que isso aconteceu? Quero dizer, tem certeza de que ele quis forçar a barra mesmo?”

Representações do agressor

Em relação aos agressores:

  • Estou mais propenso a me preocupar com as repercussões que as denúncias de violência podem produzir do que com as consequências disso para a vítima?

“Pera lá, isso que você está insinuando é grave, ele pode acabar não sendo promovido desse jeito!”

  • Normalmente eu relevo facilmente o comportamento do agressor?

“Ah, mas era só uma piada, você não sabia como ele era?”

  • Será que eu atribuo o ato denunciado a pulsões sexuais que não devem ser repreendidas?:

“Quando um homem fica excitado, não deve ser frustrado, precisamos ir até o fim!”

  • Ou vejo os agressores como doentes.

“Ele é uma pessoa com doença mental, nem todos são assim.”

Seria interessante sempre se fazer essas perguntas antes de qualquer coisa, quer sejamos profissionais em contato com o público, quer sejamos simplesmente indivíduos que convivem com outros indivíduos.

O que importa é a qualidade, a autenticidade e a integridade de nossa abertura para o outro.

Para poder cuidar do outro, cuido de mim.

E isso começa pela observação da situação atual:

  • Onde estou neste momento da minha vida?
  • O que me alimenta? Do que eu gosto?
  • O que me trava? O que me assusta?
  • A que crenças ou dogmas estou apegado?

Não se trata de nos sentirmos culpados ou de nos julgarmos, pelo contrário: temos que olhar para nós mesmos, para nossa jornada e para nossa experiência com gentileza, carinho e compaixão.

E fazer o melhor que pudermos para termos condições de acolher os outros.

 


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Leia também:

Como identificar uma mulher vítima de violência?

 

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