As mulheres sustentam a economia em duas frentes que raramente aparecem juntas no debate público. Estão no trabalho produtivo, gerando renda, e no trabalho reprodutivo, garantindo que a vida continue funcionando todos os dias. Cuidam, organizam, alimentam, educam e mantêm relações que permitem que o próprio mercado exista. Ainda assim, esse trabalho segue tratado como obrigação, não como produção de valor. Como aponta Silvia Federici, o trabalho reprodutivo sempre foi a base invisível que sustenta o capitalismo.
Diante disso, causa menos surpresa e mais indignação o fato de que sejam também as mais endividadas. No Brasil, mulheres negras e de baixa renda enfrentam condições de crédito significativamente piores, com taxas de juros que podem chegar a 140% ao ano, por exemplo. Não se trata de descontrole individual ou falta de educação financeira, como tantas vezes se repete. Trata-se de uma estrutura que paga menos, oferece menos proteção e cobra mais caro.
Capitalismo e patriarcado operam de forma articulada para sustentar esse arranjo. Enquanto o primeiro depende da extração contínua de valor, o segundo organiza quem será responsável por absorver os custos dessa produção. Ao naturalizar o cuidado como tarefa feminina, o sistema desloca para as mulheres uma carga essencial ao funcionamento da economia sem precisar reconhecê-la ou remunerá-la. Essa lógica não se explica apenas pelo gênero, mas se aprofunda quando atravessada por raça e classe, definindo quem trabalha mais, quem recebe menos e quem paga mais caro por isso.
Não é que o trabalho das mulheres seja menos valorizado, ele é sistematicamente desvalorizado para que a engrenagem continue funcionando. É assim que se sustenta uma economia que cresce apoiada em bases invisíveis e desiguais. A dívida entra como peça central desse mecanismo. Estar endividada não significa apenas dever dinheiro, significa ter menos margem de escolha. Significa aceitar o emprego possível, adiar decisões, permanecer em situações que não seriam mantidas em condições de maior autonomia.
O que se apresenta como acesso ao crédito muitas vezes opera como controle. Mulheres seguem mais expostas a relações de dependência econômica, mais pressionadas a dar conta de tudo e, ao mesmo tempo, mais limitadas em suas possibilidades de ruptura.
A desigualdade não é apenas econômica, é também uma forma de silenciamento.
Por isso, talvez a pergunta mais honesta não seja por que as mulheres devem tanto, mas quem realmente está em dívida com elas. Existe um sistema que historicamente se sustenta sobre o trabalho, o tempo e a energia das mulheres, enquanto concentra renda e distribui precariedade. Mas há um ponto de inflexão possível. Quando mulheres reconhecem o valor do que produzem, quando nomeiam as violências econômicas que enfrentam e quando constroem formas coletivas de enfrentamento, esse arranjo começa a ser tensionado. A consciência não resolve tudo, mas desorganiza o que sempre funcionou no silêncio.
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