Em que momento normalizamos a submissão das mulheres?

Odisseia - filme - personagens femininas

Quem me conhece sabe que tenho uma queda por mitologia, então A Odisséia era o filme do ano para mim. Mas, após assistir ao novo filme de Christopher Nolan, fui mergulhar na versão original para ver o que das adaptações distorcia a obra de Homero e toda a simbologia maravilhosa que traz. E essa análise é inspirada num dos episódios do podcast Noites Gregas, do incrível Professor Moreno, que trouxe justamente a comparação do filme com a obra original.

Dentre muitas mudanças megalomaníacas de Nolan, o empobrecimento das personagens femininas foi o ponto de maior incômodo. Em que momento da humanidade normalizamos a submissão das mulheres e a misoginia?

Apesar de ter sido escrita em uma sociedade profundamente patriarcal, a Odisseia constrói mulheres que conduzem a história, determinam o destino do herói e representam diferentes formas de poder. Como uma obra produzida há quase três mil anos apresenta personagens femininas tão complexas, inteligentes e determinantes para a narrativa? Por isso, existe, inclusive, uma antiga hipótese (nunca comprovada!) de que a Odisséia teria sido escrita por uma mulher.

A hipótese provavelmente não é verdadeira, mas talvez ela revele muito sobre nós. Por que, diante de mulheres tão poderosas, a primeira reação foi imaginar que apenas uma mulher poderia tê-las criado? E talvez exista uma pergunta ainda mais desconfortável: em que momento passamos a ler a Odisseia como uma história sobre um homem e não sobre as mulheres que moldam sua jornada?

Ao longo da obra, Ulisses (como é mais conhecido para nós por conta da dominação romana) enfrenta monstros, atravessa tempestades e, sobretudo, percorre uma travessia por diferentes encontros com o feminino.

Penélope

Dizer que Penélope é a esposa fiel que espera vinte anos pelo marido reduz sua importância. Enquanto Ulisses está ausente, ela governa, mantém o reino unido, administra pressões políticas, protege Telêmaco das ameaças dos pretendentes e sustenta a estabilidade de Ítaca praticamente sozinha. Sua maior arma não está na força física, mas na sua inteligência.

No final da Odisseia, quando Ulisses retorna, ela não se entrega imediatamente ao reencontro. Ela o testa (diga-se de passagem, não foi o desafio do arco e flecha que aparece no filme). Um dos trechos (de tantos) marcantes da Odisséia é o episódio da cama construída sobre o tronco de uma oliveira. Ao mandar mover o leito, Penélope cria uma armadilha impossível de ser superada por um impostor. Apenas o verdadeiro Ulisses conhece o segredo daquela cama.

Num mundo em que frequentemente associamos protagonismo à ação física, Penélope mostra outra forma de poder: discernimento, estratégia e autonomia intelectual.

Circe

Poucas personagens foram tão simplificadas ao longo do tempo quanto Circe. Na cultura popular, tornou-se apenas “a feiticeira” mas na Odisseia, de Homero, ela representa algo muito mais complexo. É uma mulher poderosa, independente, que escolhe seus parceiros e domina completamente o espaço em que vive.

Depois do encontro com Ulisses, torna-se justamente quem lhe mostra o caminho e o prepara para enfrentar o mundo dos mortos.

Sua magia talvez nunca tenha sido o aspecto mais importante, mas sim seu conhecimento.

Calipso

Calipso (foto acima) costuma ser lembrada apenas como a deusa sedutora que mantém Ulisses preso por anos, mas há outra camada nessa narrativa: representa uma crítica ao poder.

Quando Hermes, o mensageiro do Olimpo, chega para libertar Ulisses, Calipso faz um discurso surpreendentemente atual questionando por que os deuses podem escolher livremente suas amantes enquanto uma deusa é condenada quando faz o mesmo. É difícil não perceber ali uma crítica à desigualdade de gênero numa obra de quase três mil anos.

Atena

Se existe uma personagem verdadeiramente indispensável na Odisseia, talvez seja Atena, deusa da sabedoria, da guerra estratégica e da justiça.

Ela protege Telêmaco, influencia decisões, articula com Zeus, seu pai, move os acontecimentos e interfere continuamente para que Ulisses consiga retornar.

Sua força nunca depende da violência, porque a ela é atribuída a inteligência, a estratégia e a capacidade política.

É curioso perceber como justamente essa dimensão costuma desaparecer em muitas adaptações contemporâneas, que transformam Atena em uma figura quase contemplativa, quando, no poema, ela é uma das maiores responsáveis pelo desenrolar da história.

Mas elas não são as únicas.

Nausícaa, princesa dos feácios, é quem acolhe Ulisses quando ele naufraga completamente vulnerável, sem roupas, sem identidade e sem qualquer possibilidade de voltar para casa. É ela quem decide ajudá-lo, orienta cada passo que deve seguir e possibilita o reencontro com seu destino. Já Euricleia, a ama que o criou desde criança, é quem o reconhece pela cicatriz e guarda seu segredo, tornando viável a retomada do palácio.

Perceba o padrão: Atena inicia o retorno, Nausícaa salva, Circe ensina, Calipso desafia, Euricleia reconhece e Penélope valida sua identidade.

O retorno de Ulisses não acontece apesar das mulheres, mas por causa delas.

Como, então, chegamos ao ponto de contar essa história como se elas fossem apenas personagens secundárias?

O paradoxo de Homero e Nolan

Frequentemente tratamos textos antigos como necessariamente atrasados em relação às discussões contemporâneas sobre gênero. Mas, às vezes, fazemos isso sem voltar ao texto original.

A Odisseia não é uma obra feminista, ela nasce em uma sociedade profundamente patriarcal. E ainda assim apresenta mulheres complexas, inteligentes, contraditórias, desejantes, estrategistas e decisivas para a narrativa.

Elas não existem apenas para apoiar o herói, são elas que possibilitam sua jornada e definem quem ele pode ou não se tornar.

Então, por que continuamos reduzindo personagens femininas tão ricas justamente quando recontamos essa história? E, talvez mais importante: em que momento normalizamos uma leitura que apaga seu protagonismo?


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