
Falar de empatia pode soar abstrato ou até mesmo suave demais para o universo corporativo que busca performance. Mas a verdade é que a empatia virou uma competência essencial de liderança, gestão de equipes, tomada de decisão e inovação já há algum tempo.
O livro Empathy, da série Emotional Intelligence, publicado pela Harvard Business Review Press (HBR), reúne alguns artigos sobre o tema e traz um ponto de vista desafiador: empatia não é sobre gostar de gente, é sobre entender gente. E isso muda tudo.
Dos principais pontos que os artigos trazem, escolhi aqui alguns que achei que trazem boas reflexões:
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Empatia não é uma coisa só.
Para exercer a empatia é preciso ter um olhar integral para o outro e intenção. Sem um olhar generoso e compaixão, a empatia cai em um lugar utilitarista e bastante racional. Daniel Goleman, que abre o livro, traz o conceito que desenvolveu das três dimensões da empatia, destacando a importância do equilíbrio entre elas.
- Empatia Cognitiva: entender o que o outro está sentindo ou pensando.
- Empatia Emocional: sentir com o outro.
- Preocupação Empática: querer ajudar ou cuidar do outro.
Cada uma dessas facetas pode ser desenvolvida e tem impactos diferentes em contextos de trabalho. Um líder pode ser ótimo em empatia cognitiva (prever reações de sua equipe), mas falhar na preocupação empática (agir com frieza diante de um sofrimento real).
Por si só, a empatia é abstrata e intangível, ela se materializa em ações do dia a dia.
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Sem empatia, não há liderança de verdade.
Os líderes mais eficazes são aqueles capazes de construir confiança — e isso exige escuta ativa, sensibilidade, reconhecimento emocional e cuidado com os impactos das próprias decisões.
Empatia não é ser bonzinho, mas ser responsável com o efeito que você causa nos outros.
Sobre isso, vários artigos trazem pontos significativos, mas há algo que evitamos falar a respeito: posições de poder. Quanto mais poder, menos empática a pessoa se torna (claro, se não tomar cuidado e não exercitar). Esses espaços vão isolando o líder e colocando situações e referências que as distanciam das pessoas. Lou Solomon, autora do artigo “Becoming Powerful Makes You Less Empathic” (Tornar-se Poderoso Te Faz Menos Empático – tradução livre) fundadora e CEO do Interact Studio, usa uma expressão que achei muito interessante: bad mini choices (pequenas más decisões). Inconscientemente, por essa nova realidade vivenciada, essa liderança acaba focando cada vez mais nos seus próprios interesses. Agravado pelo fato de se afastar cada vez mais de um espaço de vulnerabilidade e recebimento de feedbacks.
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Empatia é treino, não talento.
Muitas pessoas dizem: “Ah, não sou empático por natureza.” Mas os textos são claros: empatia é uma habilidade que pode, e deve, ser desenvolvida.
A chave está em:
- Praticar escuta ativa, sem interromper ou julgar
- Estar presente nas interações, mesmo nas pequenas
- Buscar entender o contexto emocional das pessoas, não apenas suas palavras
- Revisitar suas certezas e reconhecer seus próprios vieses
Empatia é escolha e como toda escolha, começa com consciência.
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Olhar para si.
Em um dos textos, Rasmus Hougaard lembra que autoconsciência é a base de qualquer prática empática.
Não se trata apenas de perceber o outro, mas de ter clareza sobre o que sentimos, como reagimos e por quê. Praticar empatia passa pelo autoconhecimento, sem ele, não consigo honestamente me envolver e me co-responsabilizar pelas relações.
Um profissional que se conecta com suas emoções tende a se relacionar melhor, tomar decisões mais ponderadas e cultivar ambientes de mais segurança psicológica.
A coletânea da HBR não romantiza a empatia, reposiciona e traz a responsabilidade para cada um de nós como pilares centrais das relações que construímos.
Ela se torna uma ferramenta de gestão, inovação, resolução de conflitos e desenvolvimento humano. Empatia é inteligência em ação. É a habilidade de reconhecer a complexidade do outro sem tentar simplificá-lo. Mas acima de tudo, se implicar nas relações e ser parte efetiva delas.
Gostou do texto: “Empatia: a habilidade humana mais estratégica do nosso tempo?”
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