Tem coisas que são visíveis na escola. E outras que, por diferentes razões, acabam sendo apagadas ou não reconhecidas.
O documentário A Hora do Recreio, dirigido pela cineasta brasileira Lucia Murat, lançado em 2025, mergulha no cotidiano de escolas públicas do Rio de Janeiro a partir de um lugar potente: a escuta dos estudantes. O filme reúne jovens entre 14 e 19 anos, de diferentes territórios, e constrói sua narrativa a partir de suas falas, experiências e percepções sobre a escola e sobre a vida. Ao longo do documentário, a linguagem mistura momentos documentais com encenações, ampliando ainda mais as possibilidades de expressão dessas vivências.
Lucia Murat, conhecida por sua trajetória no cinema brasileiro marcada por obras que abordam memória, direitos humanos e questões sociais, constrói aqui uma obra sensível, direta e profundamente necessária.
E o que emerge dessa escuta não é simples.
O documentário revela, de forma profunda, diversas camadas de violência que atravessam o cotidiano desses jovens. Violências que não estão isoladas da escola, mas que entram com eles(as) todos os dias. A violência física, institucional, racial, psicológica e cotidiana. Temas como racismo, evasão escolar, violência urbana, tráfico de drogas, feminicídio e gravidez na adolescência aparecem não como dados, mas como experiências vividas.
O filme revela algo que já está ali, todos os dias: os estudantes estão falando o tempo todo.
Mas… quem está realmente escutando?
Se você ainda não assistiu, fica aqui um convite e talvez o mais incômodo seja perceber que isso não está distante.
Enquanto educadora, me emocionei profundamente. Não porque vi algo totalmente novo, mas porque reconheci uma realidade que, de alguma forma, já sabemos que existe. Mas há uma diferença importante, quando essas falas são reunidas, quando ganham espaço, quando são escutadas de verdade… isso mexe e transforma. A Hora do Recreio escancara uma urgência: não basta ensinar. É preciso criar espaços reais de fala e, principalmente, de escuta. Espaços onde estudantes possam existir por inteiro e suas experiências sejam reconhecidas. Sem que suas dores sejam minimizadas e vozes sejam interrompidas. Porque quando a escuta não acontece, a violência continua falando. E o problema não é deles, é nosso. Precisamos assumir responsabilidade.
Diante de tudo isso, fica também um convite à ação. Como temos, de fato, criado espaços seguros para que estudantes falem sobre as violências que vivem?
Em Carlotas, esse movimento também se materializa em práticas concretas, como o jogo “Diálogos sobre as Violências”, cadastre-se para acessar. A versão para estudantes, convida à reflexão sobre as diferentes tipologias de violências e abre caminhos para o diálogo, a escuta e a construção coletiva de respostas.
Reconhecer as violências é o começo, mas é preciso criar condições reais para que elas sejam nomeadas, compreendidas e transformadas.
Porque escutar pode não resolver tudo.
Mas é onde tudo começa.
Gostou do texto: “A Hora do Recreio: quando escutar se torna urgente”?
Leia também:
“Quando sinto que já sei” fala sobre modelos inovadores na educação