Estar Só Não É Estar Vazia

Ilustração de uma mulher caminhando entre flores gigantes ao pôr do sol, representando a solidão como espaço de encontro e presença – tema do artigo “Estar Só Não É Estar Vazia”.

Estar Só Não É Estar Vazia – A Solidão como Lugar de Encontro

Não é raro que a palavra “solidão” nos assuste. Nos ensinam, desde criança, que, estar só é perigoso, sinal de fraqueza, carência, abandono. Crescemos com bombardeios de vozes que confundem presença com quantidade, que tratam o silêncio como falta, e não como possibilidade. Mas há outro nome para a solidão e talvez ele seja: presença profunda.

Byung-Chul Han, em A Sociedade do Cansaço*(1), fala de uma era saturada de estímulos, conexões e desempenhos. Ele diz que estamos esgotados, não por excesso de opressão, mas por um excesso de positividade, de produção, de exposição. Vivemos cercados, mas muitas vezes não estamos acompanhados. Estamos visíveis, mas não somos vistos. E é nesse cenário que a solidão aparece não como vazio, mas como ato de resistência. Um gesto que recusa o ruído para reencontrar a escuta.

Há um trecho em O Silêncio na Era do Ruído, de Erling Kagge*(2), que desliza suave e firme sobre essa ideia:O silêncio não é ausência de algo, mas a presença de tudo.Ali, bem ali, onde as vozes externas se calam, surge uma escuta mais profunda, não do que o mundo grita, mas do que em nós ainda sussurra.

O silêncio não é pausa: é acontecimento. Um território onde a vida ganha contorno, onde o invisível se mostra sem precisar ser provado. Mas há ainda outra dimensão da solidão que me comove: aquela que inventa o mundo.

A filósofa Adriana Cavarero*(3) nos lembra que a vida de cada pessoa é única e que só se torna inteligível quando contada. Ela diz que “ninguém pode narrar sua própria história por completo”, porque o sentido da vida se constrói no entre, no encontro com o outro, mas também no intervalo em que escutamos o que pulsa dentro de nós. A solidão, então, é esse espaço silencioso entre as coisas de dentro e as coisas de fora. Ela não nega o mundo; ela o prepara. É nesse espaço que a narrativa começa a se formar, que o gesto ainda sem nome se move, que o pensamento encontra sua forma.

Experimentei essa solidão. Caminhei por cinco dias sozinha pela Patagônia, atravessando paisagens que não exigiam explicação. Ali, onde não havia ninguém para ouvir, percebi como me fazia bem não precisar contar ou justificar o que estava vivendo. A experiência, aos poucos, repousava entre o silêncio interno e o mundo que me cercava. O silêncio não era ausência. Era essência.

Estar só não é estar vazia. É habitar um território onde o tempo muda de ritmo, onde o olhar se volta para dentro sem perder o mundo de vista. Na solidão, a inteireza não grita, mas pulsa — imperfeita, em movimento, como quem respira com o mundo e não contra ele. Nenhuma ausência, apenas outra forma de presença.

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  1. HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Tradução de Enio Paulo Giachini. Petrópolis:
    Vozes, 2015.
  2. KAGGE, Erling. O Silêncio na Era do Ruído. Lisboa: Quetzal Editores, 2017.
  3. Cavarero, D. Olha-me e narra-me: Filosofia da Narração (M. Vargas, Trad.). Bazar do
    Tempo, 2025.

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