Estatuto do Homem

Estava lendo Direito à Verdade – cartas para uma criança, do Dr. Leonardo Posternak. Sou suspeita porque adoro ele e acho incrível como aborda temas complexos do dia a dia dos pais. Ou seriam temas do dia a dia para pais complexos?

De qualquer forma, o livro é excelente e traz com naturalidade assuntos como adoção, separação, mudanças, expectativas, doenças e medos que, muitas vezes, evitamos falar ou conduzimos muito mal a conversa.

O livro começa com o poema do Thiago de Mello – Estatuto do Homem – que não podia ficar de fora do nosso mundo. Aqui vai ele para a gente sempre lembrar que, de agora em diante, fica decretado que só vale a vida verdadeira.

Fica decretado que agora vale a verdade. Agora vale a vida, e de mãos dadas, marcharemos todos pela vida verdadeira.

Fica decretado que todos os dias da semana, inclusive as terças-feiras mais cinzentas, têm direito a converter-se em manhãs de domingo.

Fica decretado que, a partir deste instante, haverá girassóis em todas as janelas, que os girassóis terão direito a abrir-se dentro da sombra; e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro, abertas para o verde onde cresce a esperança.

Fica decretado que o homem não precisará nunca mais duvidar do homem. Que o homem confiará no homem como a palmeira confia no vento, como o vento confia no ar, como o ar confia no campo azul do céu.

O homem confiará no homem como um menino confia em outro menino.

Fica decretado que os homens estão livres do jugo da mentira. Nunca mais será preciso usar a couraça do silêncio nem a armadura de palavras. O homem se sentará à mesa com seu olhar limpo porque a verdade passará a ser servida antes da sobremesa.

Fica decretado que a maior dor sempre foi e será sempre não poder dar-se amor a quem se ama e saber que é a água que dá à planta o milagre da flor.

Fica permitido que o pão de cada dia tenha no homem o sinal de seu suor. Mas que, sobretudo, tenha sempre o quente sabor da ternura.

Fica permitido a qualquer pessoa, a qualquer hora da vida, o uso do traje branco.

Fica decretado, por definição, que o homem é um animal que ama e que por isso é belo, muito mais belo que a estrela da manhã.

Decreta-se que nada será obrigado nem proibido, tudo será permitido, inclusive brincar com os rinocerontes e caminhar pelas tardes com uma imensa begônia na lapela.

Só uma coisa fica proibida: amar sem amor.

Fica decretado que o dinheiro não poderá nunca mais comprar o sol das manhãs vindouras. Expulso do grande baú do medo, o dinheiro se transformará em uma espada fraternal para defender o direito de cantar e a festa do dia que chegou.

Fica proibido o uso da palavra liberdade, a qual será suprimida dos dicionários e do pântano enganoso e das bocas. A partir deste instante, a liberdade será algo vivo e transparente como um fogo ou um rio, e a sua morada será sempre o coração do homem.


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