Inveja? Eu? – olhando o monstro de frente até ele parar de assustar

Já tem um tempo que eu quero escrever sobre a inveja. Não dá pra negar que esse sentimento é tipo uma constante na vida de todo mundo e eu acho que não deveria ser a balança para medir nosso grau de “bondade” (que, vamos combinar, é dos conceitos mais complexos que existem).

-Ah, você sente inveja? Pessoinha pequena você, hein?

Inveja é um negócio tão mal visto, porém tão real, que teve até uma moda de assumir, porém amenizando com descarado racismo: “tenho uma super inveja branca de você”.

Eu sempre detestei isso. Eu, aliás, detesto moralismo. E me irrita que muita gente confunda este com caráter, quando o último, a meu ver, tem mais a ver com a ideia universal, maleável e evolutiva da busca existencial do que essa fantasia impossível de se vestir que é a moral.

Sendo assim, free inveja. Tenho mesmo. Tenho inveja de um monte de coisas, apesar de estar cada ano mais confortável na minha pele, mais feliz e realizada. Ainda tenho inveja da popularidade do meu irmão, que de tão querido, pode postar qualquer coisa no grupo da família sem causar desconforto. Tenho inveja de quem simplifica a vida, dá a cara à tapa, de quem acorda e faz, de quem publica livros. Sinto inveja de quem já fez um safári, de quem tira ano sabático pra dar a volta ao mundo, de quem larga a cidade e vai tentar uma vida mais simples. De quem cumpre lista de resolução de fim de ano. Inveja é uma coisa real, todo mundo sente. Mas eu entendo que seja polêmico, que soe como uma fraqueza. Porque inveja demais pode nos paralisar, no lugar de nos inspirar.

Fora que, ninguém quer um caldo entornado na própria felicidade, muito menos ser responsável por agourar os outros. Mas vê só, se eu não falo com esse sentimento naturalmente, como falaria com minha gratidão, com minha resiliência, com minha generosidade, com meu senso de justiça ou com a alegria de ver o outro feliz? Tudo isso ficaria falso, pois só apareceria em detrimento de eu não querer o que não é meu. Dá pra entender?

Se eu não assumo que sou humana, tudo que eu fizer vai ser uma compensação e não uma manifestação natural das minhas diversas facetas, que podem ocorrer, pasmem, simultaneamente. Feliz pelo coleguinha porém com inveja dele? Sim. Grato por tudo que tem porém achando que a grama do vizinho é bem legal? Hunrun. Ou ainda, naquela relação de amor e ódio com alguma celebridade digital que fala um monte de besteira e que mesmo assim, está de alguma maneira te inspirando? Também.

Se a inveja fosse banida, continuaríamos chamando de crítica o que na verdade é admiração. Sem assumirmos que sentimos inveja estamos perdendo de saber mais sobre nós mesmos, perdemos de ver a mágica acontecer: um encontro com nossa natureza, nossa humanidade, nossos defeitos e qualidades.
Perdemos de experimentar o melhor dela, que é a jornada até a gratidão.

É claro que eu não escrevi isso tudo para fazer uma ode a esse sentimento, que se não for bem administrado pode causar problemas. Não é porque ele deve ganhar a luz do dia que agora vamos fundar a Igreja da Inveja.

Meu ponto é, e aqui eu apelo aos clichês, olhar o monstro de frente até ele parar de assustar e, principalmente, até ele se transmutar.

Como boa verdade universal e comprovada, essa ditado aí funciona em 99% das vezes. Aquele 1% são as baratas. Que a gente morre de medo e inveja, vamos combinar. Quanto poder que as bichinhas têm!

Ilustração retirada do jogo Fran Boy – projetado por Natalia Martinsson


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