Realidade Virtual para aumentar a empatia de estudantes de medicina

Realidade Virtualpara aumentar a empatia de estudantes de medicina

Recebi do querido Fernando Tsukumo o artigo “Enhancing empathy of medical students in clinical training: a narrative-driven virtual reality experience for understanding undiagnosed chronic pain” (tradução livre: “Aumentando a empatia de estudantes de medicina em formação clínica: uma experiência de realidade virtual orientada por narrativa para a compreensão da dor crônica não diagnosticada” e confesso que demorei um pouco para ler e pensar a respeito. Ainda que o título não entregue tudo, eu no alto dos meus julgamentos, já imaginava os possíveis desdobramentos. 

O estudo teve como objetivo principal projetar e avaliar uma experiência de Realidade Virtual (RV) narrativa, capaz de imergir estudantes de medicina na realidade fragmentada de um paciente vivendo com dor crônica não diagnosticada.

A intenção foi verificar se essa intervenção pode aumentar a empatia, melhorar a compreensão da experiência do paciente e reforçar a retenção de conhecimento sobre a condição clínica estudada.

Nessa experiência imersiva de aproximadamente 4 minutos, foram simulados os desafios sensoriais e emocionais enfrentados por um paciente com dor neuropática crônica. A plataforma incorporou elementos visuais e sonoros projetados para evocar desconforto, confusão e frustração, sensações frequentemente relatadas por pacientes nessa condição.

Setenta estudantes de cursos da área da saúde com alguma experiência clínica prévia foram recrutados e, após a imersão em RV, eles responderam a dois questionários:

  1. Usabilidade da experiência, usando a Escala de Usabilidade do Sistema (SUS).
  2. Avaliação da empatia e aprendizagem, comparando respostas entre estudantes com e sem experiência prévia com RV.

 

Os resultados revelaram que a experiência de RV foi bem recebida pelos participantes nos seguintes aspectos:

  • Usabilidade acima da média: o sistema obteve uma pontuação SUS média de 70,13 (considerada satisfatória para tecnologias emergentes).
  • Aumento da empatia: estudantes que já tinham experiência em VR demonstraram melhor compreensão sobre os impactos diários da dor crônica e maior conexão emocional com o sofrimento do paciente.
  • Melhor percepção do potencial educativo da RV: esses estudantes avaliaram a ferramenta como mais eficaz para estimular empatia e apoiar a retenção de conhecimento do que métodos educacionais tradicionais.

 

Até aqui, tudo esperado, uma narrativa imersiva de RV pode facilitar uma conexão emocional mais profunda entre estudantes e a experiência subjetiva do paciente, um aspecto difícil de alcançar exclusivamente por meio de aulas teóricas ou simulações não interativas. E, a partir desse ponto, para mim se abrem dois grandes temas. O primeiro é o impacto de uma experiência para a tomada da consciência empática e o segundo, a própria tecnologia como ferramenta pedagógica transformadora. E esses dois pontos se misturam daqui em diante com uma grande síntese:

A empatia é determinante para as relações, sobretudo uma relação tão desigual quanto médico / paciente e ferramentas tecnológicas (nesse caso RV imersiva) são cruciais para o aprendizado e podem (e vão) revolucionar o conhecimento.

Pensando no desenvolvimento da prática empática, sabemos que essa é uma característica inata, mas pouco usada e menos ainda compreendida. Temos alguns impulsos confundidos com empatia, mas estão longe de significar a dimensão que sua prática traz. Ela exige uma complexa combinação cognitiva-emocional: a capacidade de observar, imaginar o que o outro está sentindo, se afetar e afetar esse outro. 

E quando pensamos na área da saúde, essa competência se torna ainda mais importante. Aquele que passa por qualquer (QUALQUER) consulta médica está de certa forma vulnerável. Existe minimamente um descompasso de poder e, mais que isso, de esperança. No sistema de saúde, o maior capital são os recursos humanos que devem ser compreendidos e respeitados em sua individualidade. A partir daí, desafios significativos estão à frente. Ter uma abordagem centrada no paciente com um relacionamento orientado para a empatia permite redesenhar como a pesquisa é feita, potencializar e personalizar os tratamentos e preparar profissionais médicos em todos os níveis com uma eficácia muito maior.

Entender que cada um é diferente parece óbvio, mas, na verdade, é extremamente desafiador. Tendemos a pensar que algo que nos é desconhecido, dentro de nossos padrões, é automaticamente negativo e, muitas vezes, errado. Dificilmente lembramos que nós também representamos o que é diferente para o outro. Mesmo quando parecemos semelhantes, nossas diferenças não são (apenas) externas. Somos, na verdade, pessoas únicas em nossas essências. Por isso, a empatia é uma habilidade central na formação de profissionais de saúde, especialmente na compreensão de experiências subjetivas de sofrimento, como a dor crônica não diagnosticada. Estudos mostram que pacientes com dor crônica frequentemente enfrentam descrença, estigmatização e frustração no contato com profissionais de saúde, situações que dificilmente são vivenciadas pelos estudantes durante a formação tradicional. 

Para abordar essa lacuna educacional, pesquisadores exploraram o uso da RV como ferramenta imersiva para aproximar estudantes da perspectiva do paciente e fortalecer sua capacidade de compreensão empática. Os resultados do estudo reforçam a ideia de que a RV não é apenas uma tecnologia atraente, mas uma ferramenta pedagógica com potencial real para transformar o ensino da medicina. Ao simular elementos sensoriais e emocionais com alto grau de presença e envolvimento, a RV permite que estudantes vivenciem, ainda que brevemente, aspectos da condição de um paciente que, de outra forma, permaneceriam abstratos.

Isso é especialmente relevante em condições como a dor crônica não diagnosticada, onde a experiência subjetiva muitas vezes está desconectada de sinais clínicos objetivos. A imersão narrativa permite que o estudante internalize essa experiência a partir de uma perspectiva “de dentro”, promovendo compreensão além do cognitivamente ensinável.

Isso porque a experiência com RV pode complementar o ensino tradicional, especialmente em temas relacionados à experiência vivida do paciente, e pode ajudar futuros profissionais a reconhecer e responder melhor às necessidades subjetivas dos pacientes. Os autores recomendam que pesquisas futuras explorem cenários mais variados de enfermidades, sessões de maior duração ou repetidas, e avaliações longitudinais para verificar se os ganhos em empatia se mantêm ao longo do tempo. 

De qualquer maneira, para oferecer ao paciente uma boa experiência, é necessário construir melhores relacionamentos e, para isso, a barreira entre o médico / paciente deve ser quebrada para que a conexão seja feita. Este é um exercício constante na prática da empatia. A principal descoberta é que a empatia vem da nossa capacidade de nos conectar uns com os outros, de criar esse vínculo, no qual reconheço algo na outra pessoa, algo humano, algo que nos unirá, mesmo com todas as diferenças.

 

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