Sempre fomos resistência, mas viramos oposição

Ilustração em preto e laranja, oito mulheres encaram a câmera e passam a sensação de força.

Semana passada completaram 16 anos que cheguei nos Estados Unidos. Foi no primeiro ano do presidente Obama. Vim estudar e me conhecer conhecendo a cidade e toda a arte dela. NYC é um lugar onde você vive a diversidade em todas as suas facetas. E você faz isso diariamente, o tempo todo. Na mesma plataforma esperando o metrô está o jovem de uniforme da escola voltando da aula, junto com a enfermeira que está acordada desde ontem, a moça indo para Wall street em um terno chiquérrimo e um senhor que está só com um sapato, em seu outro pé uma meia furada. E é assim, em todos os lugares que você está. 

Claro que existem as bolhas sociais, mas se você está na rua você vive a diversidade, querendo ou não. A diversidade vivida é tão mais simples do que a falada. Falar sobre como um ambiente é mais seguro e fomenta a criatividade é uma coisa, estar nele e perceber que eu faço parte, eu pertenço aqui sendo eu mesma, é outra. A diversidade na prática é olhar para o lado e se reconhecer no outro. A humanidade fica evidente e o conviver é natural.

Foi em 2015, em seu segundo mandato, que Barack Obama legalizou o casamento LGBTI+ em todo o país. Eu já trabalhava com o tema empatia, já estudava os conceitos de empatia, tolerância e respeito e em Carlotas, começávamos a olhar para Diversidade, Equidade e Inclusão (DEI). Em 2016 levamos pela primeira vez uma oficina Carlotas à empresas, no começo junto com parceiros, depois com mais autonomia e seguimos fazendo isso até hoje.

Levamos nossa abordagem a funcionários e funcionárias de empresas a fim de desenvolver programas relacionados aos temas de DEI, Saúde Mental e Responsabilidade Social. Nosso trabalho alcançou “big techs”, marcas de luxo, indústria alimentícia, energia, financeira, saúde, e mais. Nunca paramos, e no caminho conhecemos pessoas dentro de empresas que empurram a pauta DEI em conversas que insistem em ignorá-la. Conhecemos organizações, projetos e ações que, assim como nós, trabalham para um mundo com menos disparidade de direitos.

Essas pessoas estavam ali fazendo o mesmo movimento que a gente, sendo resistência. Resistindo ao mundo que prevê menores salários para mulheres, pessoas negras e pessoas com deficiência. Impõe a impossibilidade de crescimento ou o completo apagamento de alguns desses grupos minorizados em certas indústrias. E foi no segundo mandato do atual presidente que o trabalho relacionado ao tema DEI deixou de ser um movimento de resistência e virou oposição.

O NYTimes resumiu aqui: “O presidente assinou várias ordens executivas buscando proibir práticas de diversidade em todo o governo federal, instituições educacionais e empresas privadas. As ordens são amplas em sua linguagem e alcance. Uma delas exige que agências e escolas eliminem escritórios, cargos, planos de ação, subsídios e contratos relacionados a DEI. Outra proíbe a “ideologia de gênero e ideologia discriminatória de equidade” e ameaça reter financiamento federal de escolas que não promovam uma educação “patriótica”.

Para ilustrar ainda mais vou  linkar aqui a “ordem executiva” publicada pela Casa Branca em 20 de janeiro de 2025, intitulada Ending Radical And Wasteful Government DEI Programs And Preferencing, traduzi para “Encerrando Programas Radicais e ‘Desperdiçadores’ de DEI no Governo e Preferências”. Foi difícil traduzir porque o título é mal escrito mesmo. Até onde eu entendo “preferências” está relacionado à vagas afirmativas.

Na Sec. 2 do documento é o único lugar que “preferences” aparece fora do título. E a sessão diz entre outras coisas: “coordinate the termination of all discriminatory programs, including illegal DEI and “diversity, equity, inclusion, and accessibility” (DEIA) mandates, policies, programs, preferences,…” Traduzi para “Coordenar a eliminação de todos os programas discriminatórios, incluindo os ilegais de DEI e os mandatos, políticas, programas e preferências de “diversidade, equidade, inclusão e acessibilidade”. Aqui, programas voltados à acessibilidade aparecem como discriminatórios também, sendo que em alguns pontos até aparece na sigla DEIA.

Diante desse cenário, seguimos sendo oposição. Vamos em frente, nos fortalecendo contra o medo e a raiva alimentados a nós. Seguimos juntas, mais fortes e nos informando! Deixo aqui outros links de artigos sobre o tema:

 

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