Escrevo esse texto em comemoração ao Dia dos Pais e gostaria de dedicar essa data a toda a minha ancestralidade. Mas talvez seja preciso explicar por que nós, pessoas negras, tanto falamos sobre ancestralidade em todos os assuntos e comemorações.
Desde criança, a maioria das pessoas negras (independente de suas religiões) é ensinada a honrar sua ancestralidade, obviamente porque somos descendentes de sua grande maioria de pessoas que foram escravizadas e, quando refletimos sobre isso, é como se sentíssemos lá no íntimo as dores deles e isso nos motiva a cada dia mais sermos fortes e orgulhosos.
Hoje comemoro com muita felicidade a criação do meu menino que completa nesse mês de agosto 15 anos de idade, lindo, grande, forte, saudável, inteligente e habilidoso, tantas qualidades que às vezes eu me pego respirando fundo e refletindo o quão potente essa nova geração de crianças negras está se tornando. Minha geração foi a segunda geração após o fim do terrível regime de escravidão no Brasil, portanto eu cresci em meio a injustiças sociais sobre meu povo, onde vivíamos na miséria, onde a fome , a escassez, o racismo e a negação de oportunidades de educação e trabalho eram comuns em nossas vidas. Porém, mesmo com todas essas gerações escravizadas, assassinadas, marginalizadas e oprimidas, estamos vivendo dias melhores, estamos nos tornando potentes, estamos mais do que nunca orgulhosos de onde estamos e de onde os nossos irão chegar.
E é por isso que celebramos todas e quaisquer que sejam nossas conquistas aos nossos ancestrais. Porque sabemos que dentro de nós carregamos seus genes, dentro de nós carregamos sonhos de gerações de poderem apenas serem livres. Mesmo ainda vivendo em meio ao racismo, mesmo ainda com muitos vivendo na miséria, exploração e falta de oportunidade, somos um povo feliz que sabe ser alegre e em tudo festejar.
Porque somos e vivemos o sonho dos nossos ancestrais.
Hoje somos livres, hoje podemos nos relacionar com quem amamos, hoje podemos ter casas e bens, hoje podemos acessar uma educação de qualidade, hoje podemos lutar por nossos direitos. E hoje eu consigo ter um filho e saber que a sociedade não irá tirá-lo de mim para ser comercializado. Hoje eu olho para o meu filho e posso vê-lo crescer, eu posso demonstrar todo meu amor por ele, eu posso ajudar e ver ele escolher que caminho deseja seguir na sua linda e livre vida.
Somos e vivemos os sonhos de nossos ancestrais, sonhos de muitos que nasceram e morreram com esses sonhos não realizados, mas nós sabemos que seus genes estão em nós e por eles seguimos evoluindo, por eles estamos criando as próximas gerações ainda mais fortes, lindas e prósperas.
Sou Jorge Oliveira, pai de Talib Amani e juntos honramos nossa ancestralidade.
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