Uma história sobre excelência, diversidade e o poder transformador da empatia.
Uma Advogada Extraordinária é uma série da Netflix que me pegou de surpresa. Comecei a assistir sem muitas expectativas e terminei completamente encantada. Por isso decidi escrever esta resenha, especialmente para o Blog de Carlotas, pois acredito que aqui seja o espaço ideal para debatermos esse tema. Não apenas pela história da protagonista, mas pela delicadeza com que a empatia é apresentada sob tantas camadas.
Sem spoilers por aqui. Só reflexões sinceras sobre o que essa série me ensinou sobre empatia, inclusão e o valor das diferenças, principalmente, quando o assunto é lidar com tudo aquilo que desafia o “status quo”: diferenças de comportamento, de cognição, de sensibilidade, de percepção do mundo, de formas de se relacionar, de trabalhar… e até de amar.
Essa reflexão me levou a lembrar de uma frase que ouvi certa vez de um médico muito respeitado, e que, na verdade, ecoa a definição da Organização Mundial da Saúde (OMS), de 1948: “Saúde é um estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não apenas a ausência de doença ou enfermidade.”
Se formos francos e levarmos esse conceito literalmente, talvez nenhum de nós possa se considerar plenamente saudável. Afinal, o simples fato de usar óculos já indica uma alteração na saúde física. Sintomas como cansaço excessivo, sobrepeso ou distúrbios do sono podem ser sinais de ansiedade, ou depressão, condições cada vez mais comuns e, muitas vezes, silenciosas, que afetam diretamente nossa saúde mental. E mesmo quando o corpo e a mente estão dando sinais, é na dimensão social que tudo costuma se esconder. Por medo de julgamentos, muitas pessoas deixam de expressar suas vulnerabilidades, especialmente no ambiente corporativo, onde ainda há tantos pré-conceitos sobre o que é ser forte, adequado ou “profissional”.
Uma Advogada Extraordinária conta a história de Woo Young-woo, uma jovem brilhante, recém-formada em Direito com honras pela Universidade Nacional de Seul, que consegue uma vaga em um dos escritórios de advocacia mais renomados da Coreia do Sul. Diagnosticada com Transtorno do Espectro Autista, sua trajetória passa por uma série de barreiras: desde a infância, com dificuldades de adaptação, até o momento de ser contratada, já adulta. No ambiente profissional, enfrenta a resistência de colegas e a falta de sensibilidade de um sistema que, embora fale em excelência, nem sempre está preparado para acolhê-la de verdade. Mesmo com sua inteligência admirável e um currículo digno de orgulho, na prática, vemos que o discurso de inclusão ainda não se sustenta com naturalidade.
Dra. Woo tem uma memória extraordinária e um raciocínio lógico fora do comum.
Mas seu jeito único de se expressar, reagir e se relacionar causa estranhamento. E a série nos mostra, com muita sensibilidade, que o verdadeiro obstáculo nunca esteve nela, e sim, no modo como os ambientes respondem à sua presença.
Mesmo sendo uma história fictícia, é impossível não se impressionar com o amor genuíno da Dra. Woo pelas leis e sua capacidade única de fazer conexões entre ideias. A forma como atua, hoje, se compararia a uma IA, tamanha a agilidade e precisão com que processa e organiza informações. É algo nitidamente fora dos padrões. E por isso mesmo, extraordinário.
É aí que vejo a potência dessa série e a grandiosidade dessa personagem, pois ela não força nada. Ela simplesmente é. Ela carrega excelência em sua essência, mesmo com todo o sofrimento, os questionamentos e os desafios que não são ocultados na narrativa.
Fica claro que ela não se vitimiza em nenhum momento. Ao mesmo tempo, ela também não esconde ou nega sua condição — ela reconhece que é uma pessoa com deficiência, mas isso não a impede de se sentir apta, capaz e extraordinária. E o mais surpreendente é perceber que, assim como na realidade, muitas vezes portas se fecham — não por falta de excelência, mas por excesso dela.
É incrível observar como a presença da Dra. Woo tem o poder de transformar o ambiente ao seu redor. Colegas que antes demonstravam impaciência começam a admirá-la. Outros continuam desconfortáveis. Cada um com sua história, seus limites, seus aprendizados. Mas uma coisa é certa: ao lado dela, ninguém permanece indiferente. Ou seja, de uma forma ou de outra, ela ensina a todos.
E essa talvez seja a grande lição da série: quando o ambiente em que estamos inseridos é respeitoso, seguro e inclusivo, as pessoas conseguem florescer de forma natural, a partir da sua essência. Por isso, não foi fácil receber a notícia de que não haverá uma segunda temporada.
Sinceramente, é difícil assistir a essa série e não parar para repensar nossas próprias atitudes no dia a dia. Quantas vezes já não vimos alguém ser rotulado por falar “diferente”, por reagir “fora de hora” ou por não se comportar da forma esperada? Quantos talentos já não foram desperdiçados por não caberem em um molde? Quantas Dras. Woos, com autismo ou sem autismo, será que não existem por aí, prontas para entregar o melhor de si, mas silenciadas por ambientes inflexíveis ou por falta de oportunidade?
Sim, essa pode ser uma história de ficção. Mas isso não a torna menos real. A Dra. Woo é uma advogada extraordinária. Não apesar do autismo. Mas com o autismo. Sua forma única de perceber o mundo é justamente o que a torna especial e necessária.
Mais do que uma série encantadora, Uma Advogada Extraordinária é um convite para refletirmos sobre o que é diversidade na prática. Sobre o que é empatia nos ambientes de trabalho — ou em qualquer espaço de convivência. E sobre a beleza de aceitar, respeitar e se encantar pelas diferenças.
Talvez, ao assistir, você também se pergunte: o que posso fazer hoje para tornar o ambiente onde estou mais empático e acolhedor às diferenças ao meu redor?
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