Dando continuidade ao tema de março, equidade de gênero, Fabiana Gutierrez, CEO e sócia fundadora da Carlotas, e Gabriela Treteski, sócia e diretora de educação, conversaram com Amanda Sadalla, administradora pública e diretora executiva da Serenas, organização sem fins lucrativos fundada e gerida por mulheres e dedicada à prevenção das violências baseadas em gênero no Brasil por meio da educação.
Durante a conversa, Amanda destacou que discutir violência de gênero no país evidencia duas grandes lacunas. A primeira diz respeito à capacitação das pessoas responsáveis por atender as vítimas. Embora o Brasil possua leis consideradas robustas para o enfrentamento da violência, muitas vezes quem atua na sua aplicação deixa que vieses pessoais racistas, misóginos e machistas se sobreponham ao que a legislação determina. A segunda lacuna está na prevenção, ainda pouco trabalhada no país.
De acordo com Amanda: “A violência de gênero pode ser compreendida como toda violência motivada pelas expectativas sociais atribuídas ao gênero de uma pessoa. Ela afeta todas as mulheres, cis e trans”.
Nesse contexto, a escola aparece como um território estratégico para pensar a prevenção. É nesse espaço que crianças e jovens constroem relações, identidades e compreensões sobre o mundo. A pesquisa Livres para Sonhar?, desenvolvida pela Serenas, traz o ponto de interrogação no título justamente para provocar uma reflexão: as violências de gênero permitem, de fato, que meninas sejam livres para sonhar?
O estudo ouviu mais de 1.400 pessoas, entre estudantes, profissionais da educação e lideranças de secretarias de educação, e revelou dados importantes sobre a presença da violência de gênero no ambiente escolar.
Embora indicadores educacionais mostrem que meninas, em média, apresentam melhor desempenho escolar que meninos, muitas delas acabam interrompendo sua trajetória no ensino médio. Entre os fatores que contribuem para essa evasão estão gravidez precoce, responsabilidades domésticas e situações de violência de gênero.
Essas desigualdades também afetam a trajetória de meninos que fazem parte da comunidade LGBTI+. Aqueles que não performam a masculinidade socialmente esperada frequentemente são excluídos de grupos e alvo de violências físicas, psicológicas e verbais.
Outro dado preocupante revelado pela pesquisa é que “sete em cada dez professores afirmam já ter presenciado situações em que meninos sexualizam ou fazem cantadas indesejadas a meninas dentro da escola”.
Diante desse cenário, Serenas atua apoiando secretarias de educação e escolas, oferecendo ferramentas, conteúdos e estratégias pedagógicas para que a prevenção da violência de gênero possa ser trabalhada de forma estruturada no ambiente escolar.
Trabalhar com o tema da violência de gênero pode gerar receio. Muitas vezes há medo de “mexer em um vespeiro”. No entanto, como destaca Amanda: “abordar essa questão implica reconhecer que não teremos todas as respostas e tudo bem”.
O mais importante é começar. Mesmo diante das dúvidas e da complexidade do tema, cada iniciativa abre caminhos e revela possibilidades de transformação.
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