Transparência Salarial: dados escancaram a desigualdade de gênero.
O 3º Relatório de Transparência Salarial foi divulgado nesta semana. Corri ansiosa para olhar os resultados, com aquela pontinha de esperança de encontrar ali o que não tenho encontrado em pesquisas, leituras ou trocas com outras profissionais. Mas não, não encontro novidades.
Apesar de apresentarem, em média, maior escolaridade que os homens, as mulheres ainda recebem 20,7% a menos.
E não para por aí. Como sempre digo, a interseccionalidade não pode nunca ser esquecida ou desconsiderada. Quando analisada a remuneração média de homens e mulheres X homens e mulheres negras, os números são ainda mais impactantes:
Homens – R$ 4.745,53
Mulheres – R$ 3.755,01
Homens negros – R$ 3.647,97
Mulheres negras – R$ 2.864,39
Sim, nem é preciso ser um especialista para perceber que mulheres negras ganham em média pouco mais da metade do que homens recebem…
Se compararmos mulheres negras e homens não negros, elas recebem apenas 47,5% do que eles, que ganham R$ 6.035,33 em média.
Os altos cargos também não passam ilesos a diferença. Mulheres em cargos de direção e gerência recebem, em média, 73,2% do salário dos homens. Já nas funções de nível superior, elas ganham 68,5% e nas atividades administrativas, 79,8%.
Perdem as mulheres, mas perde também a economia. Segundo a ministra das Mulheres, Cida Gonçalves, caso as mulheres ganhassem igual aos homens na mesma função, R$ 95 bilhões teriam entrado na economia em 2024.
As empresas apontam inúmeros dados que precisam ser ajustados no relatório como a análise via grupo de ocupações que considera diferentes cargos e níveis, a questão de horas extras e outros pontos, mas, de maneira geral, o resultado que vemos impresso é o resultado que vemos nas ruas, que tem base e fundamento histórico em uma sociedade que se constituiu e cresceu baseada na desigualdade de gêneros.
Não custa nada lembrar, por exemplo, que até 1962 a mulher casada precisava de autorização do marido para trabalhar fora – SESSENTA E DOIS, muito provavelmente sua mãe ou avó viveram essa realidade!
A criação da lei e a confecção dos relatórios já é um avanço que deve ser considerado, uma vez que, com essa obrigação legal, o tema passou a ser discutido em mesas que até então não se debruçavam sobre desequilíbrio salarial entre gêneros.
Olhar para dentro de casa com atenção é um exercício valioso para organizações que querem trabalhar a equidade de gênero além do discurso – cruzar interseccionalidades, ajustar propostas salariais de contratação e programas de mérito também são etapas fundamentais para o avanço real do tema.
*Esses dados foram retirados do Relatório Anual de Informações Sociais (RAIS) de 2024, fruto da lei 14.611/2023 que determina que todos os estabelecimentos do setor privado com pelo menos 100 empregados divulguem informações sobre salários de homens e mulheres.
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