Saúde Social: Estamos nos Afastando uns dos Outros?

Ilustração colorida de um rosto feminino com olhos fechados em meio a formas geométricas e folhas tropicais, representando o tema do artigo “Saúde Social: Estamos nos Afastando Uns dos Outros”.

Saúde Social: Estamos nos Afastando uns dos Outros?

Não é de hoje que escutamos que o ser humano é um ser social. Mas, nos últimos anos, estamos vendo essa verdade ser colocada em xeque, silenciosamente, nas pequenas e grandes escolhas cotidianas. O fenômeno do isolamento não se restringe às famílias, aos idosos ou a grupos específicos. Ele atravessa as relações de trabalho, afetando líderes, liderados, colegas de equipe e sócios. A solidão, muitas vezes invisível, se tornou um desafio contemporâneo, com consequências tão graves quanto as de problemas de saúde amplamente reconhecidos.

Dados recentes são contundentes. Em 2024, um cirurgião-geral dos EUA, Vivek Murthy, alertou que o impacto na saúde da solidão é semelhante ao de fumar até 15 cigarros por dia e mais nocivo do que a obesidade ou o sedentarismo. Outro estudo, publicado na JAMA Neurology, indicou que pessoas frequentemente solitárias têm 37% mais risco de desenvolver Parkinson. O tema já é tão preocupante que o Reino Unido criou um Ministério da Solidão. Se as políticas públicas já estão debruçadas sobre o tema, o mundo do trabalho não pode ignorar o sinal de alerta.

Se olharmos para dentro das organizações, veremos que um dos principais fatores de engajamento e bem-estar no trabalho é justamente a qualidade das relações que construímos. Não é o pacote de benefícios, o layout do escritório ou a política de home office que retém as pessoas é a sensação de pertencer, de poder contar com colegas e líderes, de ser visto. Relações pobres ou inexistentes tornam o trabalho mecânico, desvinculado de sentido e propósito, além de favorecerem o adoecimento psíquico.

Paradoxalmente, nunca estivemos tão conectados virtualmente, e tão distantes na vida real. O deslocamento dos debates e interações para o ambiente digital trouxe um fenômeno curioso: no online, somos intensos, ruidosos e, muitas vezes, hostis; já na realidade, convivemos cada vez menos, trocamos menos olhares e compartilhamos menos silêncios significativos.

Entre fones de ouvido cada vez mais sofisticados e ambientes de trabalho onde a introspecção virou regra, criamos bolhas de isolamento, às vezes, elegantes e tecnologicamente premiadas, que nos protegem dos ruídos externos, mas também nos afastam de encontros genuínos.

A pandemia acelerou esse processo. Para muitos, o retorno presencial não significou um reencontro de fato. Mesmo quando as pessoas ocupam o mesmo espaço físico, continuam frequentemente apartadas, cada uma em sua ilha, conectadas a múltiplos dispositivos e desconectadas umas das outras. E isso vale para todos os níveis hierárquicos. O líder que não sabe mais como perguntar ao time como estão de verdade, o sócio que evita conversas difíceis, o colaborador que prefere resolver tudo por mensagem: todos podem estar, sem perceber, alimentando o ciclo de isolamento.

Ao longo da história, sempre soubemos que relações de qualidade são um dos principais ingredientes para uma vida feliz e longeva. A vida nos mostra, vez ou outra, que o que mais nos protege e nos cura não está nas grandes realizações, mas na simplicidade de uma rede de apoio, no amor de quem fica, nas conversas que nos atravessam. Ainda assim, parecemos caminhar na direção oposta, normalizando o afastamento e a falta de diálogo no dia a dia do trabalho.

Diante disso, cabe uma pergunta simples, mas urgente: como estão suas relações no trabalho? O quanto as pessoas ao seu redor se sentem vistas, escutadas e pertencentes?

A saúde social e não apenas a saúde física ou mental precisa ser discutida de forma séria nas organizações. Saúde social não é sobre criar ambientes “felizes” ou “divertidos”, mas sobre garantir que as pessoas possam existir de forma autêntica, se conectando, aprendendo e colaborando de verdade. É sobre perceber que, sem relações, não há engajamento duradouro, não há inovação consistente e, sobretudo, não há saúde. Fica o convite para que, antes de mais nada, possamos falar sobre isso e, quem sabe, reaproximar as pessoas.

 

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