Em celebração ao Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra as Mulheres (25 de novembro), resolvi compartilhar uma ferramenta imprescindível para saber identificar se uma mulher é vítima de violência e, ao mesmo tempo, questionar as próprias percepções sobre a violência, sobre a vítima e sobre o agressor.
Sem essa dupla consciência – reconhecer os sinais e reconhecer nossos filtros – arriscamos normalizar práticas abusivas, reforçar estereótipos e falhar justamente no ponto em que ela mais precisa ser vista, levada a sério e protegida.
Trecho do livro ainda inédito “Guia Prático: Mulheres Diante da Violência”.
Como identificar uma mulher vítima de violência?
Identificar uma mulher vítima de violência não é tão difícil quanto se imagina. Considerando os números, muitas mulheres foram, são, ou serão vítimas de violência no decorrer de sua vida. Como podemos abordar o assunto da violência sem sentir que estamos sendo indiscretos e sem invadir a privacidade da nossa interlocutora?
Um jeito simples, porém poderoso, é perguntar – perguntar se ela é vítima de violência ou se já passou por situações de violência.
Ah, mas será que isso não é intrusivo?
Com relação ao medo de ser invasivo, é importante lembrar que a violência é punível por lei e, portanto, constitui um crime contemplado no Código Penal. As infrações são comportamentos que o legislador considerou contrários à ordem social e que, se cometidos, são punidos. Portanto, levantar a questão da existência de violência não é de forma alguma uma intromissão na vida privada de uma pessoa, pois estamos nos referindo a um comportamento descrito no Código Penal como proibido.
Como perguntar?
Perguntar de maneira simples e direta A vantagem disso é que rompesse o silêncio em torno da violência e cria-se, graças a quem pergunta, um espaço de abertura para a palavra. Se a mulher for uma vítima, ela pode se sentir aliviada por termos abordado o assunto.
Se não for, por que se ofenderia?
Você já ficou bravo quando, por exemplo, durante uma consulta, seu médico analisa seu histórico médico?
Ou quando, entre amigos, um deles lhe pergunta se você já esteve em um determinado lugar? Não. O mesmo se aplica à violência.
Falar sobre a violência, perguntar se ela está ocorrendo não fará com que ela apareça ou piore. Pelo contrário, falar sobre ela é um reflexo da frequência de sua ocorrência na vida de milhões de pessoas, sejam como vítimas ou como testemunhas diretas ou indiretas.
O mesmo desconforto ocorre quando abordamos temas como morte e suicídio. Usamos eufemismos para evitar o enfrentamento da dor da realidade. Dizemos “ele se foi”, “ela nos deixou”, sem nunca mencionar de fato o que aconteceu. É como se não falar sobre o fato fizesse com que ele desaparecesse.
Falar sobre o fato é essencial para a vítima e nomeá-lo lhe dá visibilidade, faz com que ele exista para todos verem.
“Não, eu não estou louca, isso realmente aconteceu! Se estão me perguntando, é porque sabem que isso pode acontecer”.
É isso que pode acontecer na cabeça de uma pessoa que passou ou está passando por situações de violência.
Então para sabermos se uma pessoa é vítima de violência, basta perguntar isso a ela de maneira simples e direta.
Fazendo uma analogia com a comida: quando quero saber se uma pessoa já comeu ou se está com fome, eu pergunto isso a ela de modo direto e de acordo com sua resposta escolho como agir.
O mesmo vale para a violência, eu faço a pergunta. E acolho a resposta.
Que pergunta fazer?
A melhor pergunta é aquela que nos sentimos capazes de fazer, sem enrolação, sem procrastinação, sem pressa. Seria inútil repetir algo que aprendemos de cor só para tentar fazer direito, ou recitar um texto como um ator no palco.
Basta estar confortável com a abordagem escolhida e partir para a interação, sem expectativas e sem qualquer obrigação de obter uma resposta.¹
Pode ser uma pergunta aberta, que convida a pessoa a se abrir e a falar mais:
“Como está a sua relação no momento?”
É possível que a resposta seja vaga e nesse caso podemos acrescentar:
“Quando vocês brigam, como é? Qual é a reação do seu parceiro quando vocês não concordam?”
Também é possível tentar ajudar a pessoa a se expressar, fazendo uma pergunta bem dirigida:
“Neste momento você está passando por uma situação de violência?”
E acrescentar alguns elementos específicos:
“No trabalho, com seu parceiro, com sua família etc?”
Além disso, com relação à revitimização, entendida como um mecanismo pelo qual uma pessoa que sofreu violência, geralmente na infância, torna-se vítima de nova violência, pode ser interessante descobrir se a pessoa sofreu violência no passado, principalmente na infância:
“Aconteceu algo no passado que te machucou e que continua te causando sofrimento hoje em dia?”
O objetivo não é nos colocarmos como investigadores, mas dar às pessoas o espaço para se expressarem, para se sentirem livres para falarem sobre o que vivenciaram ou estão vivenciando no momento. E nosso trabalho é facilitar a expressão delas.
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1 Um dos princípios fundamentais da Maïeusthésie, fundada por Thierry Tournebise em 2000. A Maïeusthésie é entendida como uma psicoterapia breve que apazigua as feridas do passado, com pragmatismo e gentileza, além de uma abordagem inovadora de comunicação caracterizada pela assertividade.
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