Construção, desconstrução e reconstrução.

Eu nasci em São Paulo, em pleno feriado do dia 15 de novembro. Minha mãe, uma cirurgiã dentista que ama sua profissão e trabalha incansavelmente, foi tirada de seu descanso merecido de um feriadão e foi levada para o hospital para parir sua 3a filha em 1983.

Desde então, cresci no meio odontológico: meu bisavô, meus avós paternos, minha tia materna e dois primos são (ou eram) dentistas também. Desde a adolescência eu lavava instrumentais, atendia telefone para agendar consultas, auxiliava em cirurgias e acompanhava minha mãe em alguns congressos odontológicos. Esse era meu mundo. Por isso, não tive dúvidas na hora de escolher meu curso superior de ‘preferência’ no vestibular.

Me formei em 2007 e atuei como cirurgiã-dentista durante 13 anos. Amava o que fazia e trabalhava em um ritmo bem intenso, como minha mãe. Durante a pandemia, me afastei somente por poucas semanas e logo voltei a atender porque, na época (e até o dia que escrevo esse texto) não existia nenhuma tecnologia para realizar um procedimento odontológico à distância (vai saber, né?).

E durante meses foi daquele jeito, biossegurança reforçada, transpiração embaixo de 2 aventais, máscara N95, 2 gorros, óculos de proteção, face shield, propé e a tensão em ser contaminada, já que os estudos sobre a COVID-19 estavam em estágios iniciais.

Sei que a pandemia fez muitas pessoas repensarem seu estilo de vida e, em partes, eu fui uma delas. Sei também que ocupo um lugar muito privilegiado, desde a infância, em ter a oportunidade de repensar e ressignificar minha vida profissional, conseguir planejar e me estruturar com mudanças externas e internas também, conforme mudo minhas perspectivas.

Com essa ideia eu fui repensando o que eu queria para minha vida. Me perguntava: O que minha profissão representa para mim? Ela define quem eu era? Ela me coloca em um “status” social do qual eu tenho dificuldade de me desprender?

A resposta é não. O que eu sempre valorizei foram as relações. Ainda sou fascinada pela parte clínica orofacial, mas percebi que queria entender mais sobre o como e o porquê pensamos e agimos de formas tão diferentes.

Nesse momento de reflexões e mudanças também me realoquei para Lisboa em 2021 e foi aí que Carlotas surgiu como uma oportunidade de atuar em uma área que é minha grande paixão – Neurociência e Comportamento – e exercer o propósito que sempre busquei (e busco): atuar no desenvolvimento das relações humanas e, com isso, tentar transformar e ser transformada por essa interação. Confesso que a segunda parte acontece com mais frequência.

A transição foi e ainda é intensa, significa mudar todo o círculo de amizade e convivência (mudar, não substituir), mudar a forma com a qual você interage com as pessoas, mudar sua rotina, suas preferências, sua relação com ligação de Whatsapp (confesso que detestava, mas estou em processo de adaptação), a forma de cuidar de si, a forma de escutar as outras pessoas, são tantas mudanças que, tenho muito certo de que não conseguiria fazê-las sem ter relações de afeto no percurso.

São pessoas que me movem e eu tenho a sorte de esbarrar com pessoas incríveis, mas considero essa interdependência e vulnerabilidade combustíveis importantes para manutenção da minha vida, hoje mais do que nunca.

Mudei de continente, de profissão, de estilo de vida e, sabendo do lugar de privilégio que tive em todo esse processo adicionado ao fato de ter conhecido pessoas admiráveis que me ensinaram – mesmo sem elas terem consciência disso – hoje tenho mais convicção de que a profissão, a origem, a “casca” não define ninguém, mas a forma com a qual interagimos com o mundo.

E pretendo atuar incansavelmente para relembrar isso de todas as formas que puder, inclusive para mim mesma.

Parte de quem eu sou é reflexo das pessoas que interajo, sem elas, eu acredito que seria menos completa, talvez nem seja possível chegar nessa integralidade em algum momento. Mas é neste ciclo que me encontro e espero estar nele por toda a vida: uma eterna construção, desconstrução e reconstrução.


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