A conquista do voto feminino no Brasil representa um marco histórico fundamental, mas ainda hoje revela desafios importantes quando observamos quem, de fato, ocupa os espaços de decisão política. Apesar das mulheres serem maioria do eleitorado brasileiro, sua presença nos cargos eletivos permanece significativamente menor do que a dos homens, evidenciando barreiras estruturais que envolvem desigualdades de acesso a recursos de campanha, redes de apoio político e oportunidades partidárias. A sub-representação é ainda mais acentuada quando consideramos os recortes de raça, classe e território: mulheres negras, indígenas e periféricas continuam enfrentando obstáculos adicionais para disputar e ocupar cargos políticos.
Além da falta de representação numérica, persistem desafios relacionados à violência política de gênero, que se manifesta por meio de ataques, deslegitimação pública, ameaças e práticas institucionais que dificultam a permanência das mulheres na política. A aprovação da Lei Federal 14.192, de 2021, que tipifica a violência política contra as mulheres no Brasil, representa um avanço legislativo importante na luta contra essa forma de violência.
No entanto, a persistência e a gravidade dos ataques evidenciam a necessidade de ações mais efetivas de prevenção, proteção e responsabilização. O assassinato da vereadora Marielle Franco tornou-se um símbolo dessa realidade, expondo de maneira contundente como mulheres, especialmente mulheres negras que ocupam espaços de poder, podem se tornar alvos de violências que ultrapassam o campo individual e atingem a própria democracia.
A violência política de gênero não afeta apenas as vítimas diretas: ela desencoraja outras mulheres a participarem da vida pública, perpetuando a sub-representação feminina e enfraquecendo os processos democráticos. Por isso, o direito ao voto, embora essencial, não encerra a luta pela participação democrática plena. O debate contemporâneo aponta para a necessidade de políticas de incentivo à participação feminina, mecanismos efetivos de combate à violência política e ações que promovam equidade racial e social nos processos eleitorais. Só assim, a conquista iniciada em 1932 poderá avançar em direção a uma democracia verdadeiramente representativa.
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