O sentimento que define um ano marcado por múltiplas crises (que seguem…)

O sentimento que define um ano marcado por múltiplas crises (1)

O sentimento que define um ano marcado por múltiplas crises (que seguem…) Foi escutando Engenheiros do Hawaii, uma música que me levou imediatamente à minha adolescência, que me foi revelada a palavra que define, para mim, o ano de 2025: nostalgia. 

Deixe-me explicar. 

Sabe o que há em comum entre “Make America Great Again” e “Ainda temos este problema na imagem da cidade”? A ideia persistente de que, em algum lugar do passado, tudo era melhor. Mais organizado. Mais próspero. Mais seguro. 

Este sentimento de nostalgia tem pautado discursos políticos que desejam restaurar uma ordem que nunca existiu para todos de verdade, e que, sem surpresa nenhuma, exclui justamente quem hoje é convocado a acreditar que não pertence. 

Estas mesmas pessoas, por sua vez, resgatam-se na nostalgia quando são oprimidas por um sistema que não reconhece suas qualificações e subestima pelo sotaque, que insiste em lembrar, de forma explícita ou sutil, que seu percurso começou “errado em outro lugar”. 

“Um dia me disseram que as nuvens não eram de algodão.”

E, noutro, ouvi um pesquisador alemão da Psicologia da Migração definir nostalgia como um sentimento que se manifesta no corpo, evocando memórias afetivas justamente quando o presente se torna difícil. Um resgate de algo bom que nos permite continuar. Será? 

Qualquer semelhança com Donald Trump e Friedrich Merz não é coincidência.

Para pessoas migrantes, nostalgia é também a sensação ambígua de visitar o país de origem e constatar que ele mudou, que nós mudamos, e ainda assim algo insiste em nos puxar de volta não ao que foi, mas ao que sentimos, pois é isso que nos constitui, nos reconhece e nos sustenta. 

O paradoxo é evidente: discursos polarizadores e políticas excludentes estão nos dois lados do oceano. Eles reforçam categorias rígidas de “nós” e “eles”, e fazem com que parte da população se sinta permanentemente deslocada. Só posso relatar o que observo: quando o passado de pessoas migrantes não é reconhecido, quando saberes acumulados não são valorizados, quando a atenção recai apenas no que supostamente falta, a nostalgia cresce. Testemunho isso todas as semanas em nossos cursos. 

Mas é justamente por compreender o risco de ficarmos presas ao passado, que temos que agir. 

Aqui na Alemanha, iniciamos o ano adicionando luz à Corrente de Luz e à campanha antifascista #nuncamais, reafirmando que memória é compromisso. Levamos o arco-íris para o coração do Parlamento alemão, já que a presidência da casa havia negado o hasteamento da bandeira no Mês do Orgulho, pois símbolos importam, e silenciá-los também é um gesto político.

Estimulamos mulheres com direito ao voto a irem às urnas, exercendo sua cidadania em apoio à democracia. Levamos nossa beleza e pluralidade ao Stadtbild de Munique em um passeio guiado sobre o Terceiro Reich, disputando espaço para narrativas diversas em uma cidade que ainda negocia sua memória. Aprendemos sobre “Mulheres, Segurança e Paz”, compreendendo que nosso engajamento por um convívio mais pacífico entre os povos começa nas relações concretas que construímos todos os dias. 

Fizemos tudo isso e muito mais porque sabemos que a nostalgia, quando manipulada, alimenta o populismo. E porque consideramos mais arriscado não fazer nada do que erguer a nossa voz. 

Ao contrário do que disse o ex-Chanceler Helmut Schmidt – “Quem tem visão precisa ir ao médico” – nós temos, sim, uma visão e não precisamos de um diagnóstico, mas de respeito e condições para desenvolvimento. 

Queremos usar a nossa nostalgia como ferramenta de construção: olhar para o passado com consciência e confiança, refletir criticamente sobre o presente e construir, de forma ativa, um futuro bonito para nós, nossas famílias e a sociedade em que vivemos. De preferência, com abraços e muito afeto. 

E assim, “tudo ficou tão claro, um intervalo na escuridão”.

Reconheci que o sentimento que define 2025 para mim pode ser recurso psicológico, fortalecer redes, estimular a empatia e abrir espaços simbólicos, como vimos nos eventos culturais brasileiros que aconteceram em toda a Alemanha. Mas ele se torna escapismo quando impede de olhar para frente, quando vira ressentimento ou âncora. 

Por isso, seguimos insistindo em transformar aquilo que lembramos naquilo que ainda podemos criar. Porque se o passado nos ensina e o presente nos desafia, o futuro nos convoca. 

Somos quem podemos ser. 

Sonhos que podemos ter.

 

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