No Outubro Prata, a conversa sobre envelhecimento e a conversa sobre deficiência deveriam ser a mesma. Para as empresas, isso muda o que vale a pena consertar “primeiro”.
Existe uma ideia que ainda trava muita decisão de negócio: muitos veem que acessibilidade é um recurso para uma “minoria específica”, um custo de conformidade, algo que se faz porque a lei manda, por causa da regulação; porém os números do Censo 2022 mostram que é o contrário.
O IBGE identificou 14,4 milhões de brasileiros com deficiência, 7,3% da população com 2 anos ou mais. O dado que me interessa está na distribuição por idade: a prevalência é de 2,2% entre 2 e 14 anos, 5,4% entre 15 e 59, 14,4% entre 60 e 69 e 27,5% a partir dos 70 (apesar de que alguns estudos falam que, no Brasil, 49,6% das pessoas com mais de 60 anos têm deficiência permanente). Pessoas com 60 anos ou mais são 14% da população sem deficiência, mas 45,4% das pessoas com deficiência. Segundo a Agência Brasil, a taxa passa de 10% a partir dos 55 anos e de 30% a partir dos 80.
Esses números demonstram que o envelhecimento e a deficiência são, em boa parte, a mesma curva. E o Brasil está nela; já são 32,1 milhões de pessoas com 60 anos ou mais, 15,8% da população, e a expectativa de vida chegou a 76,6 anos em 2024. Portanto, a acessibilidade deveria ser pauta de toda diversidade. Existem mais mulheres com deficiência que homens e existem mais homens pretos que brancos com deficiência, porém muitos deles precisam de outros recursos de acessibilidade.
O que o IBGE mede e o que isso revela
O instituto identifica deficiência a partir de dificuldades funcionais: enxergar, ouvir, andar ou subir degraus, pegar objetos, lembrar. Uma técnica do IBGE (que faz por autoavaliação) resumiu bem: “é muito característico de pessoas idosas terem mais dificuldade para ouvir, caminhar, subir degraus ou até de memória”.
Ou seja, a maioria das pessoas mais velhas não vai se identificar como “pessoa com deficiência”. Vai dizer que a letra do contrato está pequena, que o restaurante é barulhento demais, que o aplicativo ficou confuso, que a escada cansa. Tem a necessidade, não tem o rótulo, e quem só projeta para o rótulo perde o cliente.
A OMS projeta que uma em cada quatro pessoas no mundo terá algum grau de perda auditiva em 2050; isso não é um nicho, será requisito de produto.
Acessibilidade como infraestrutura de uso
Sempre que uma solução criada para quem tem limitação funcional entra no cotidiano, ela acaba servindo a todo mundo: legenda, rampa, comando de voz, contraste. Quem aprendeu isso primeiro ganhou mercado. Por isso eu proponho mudar a pergunta. Em vez de “quantos dos nossos clientes têm deficiência?”, perguntar “quantos deles vão ter dificuldade para ver, ouvir, se mover ou processar informação rápido, hoje ou nos próximos dez anos?”. A resposta é: todos, só que em momentos diferentes.
Sete dicas práticas para começar (deveríamos estar fazendo há muito tempo)
- Digital ajustável por padrão. Fonte que aumenta sem quebrar a tela, contraste forte, botões grandes e espaçados, compatibilidade com leitores de tela. O padrão internacional de referência é o WCAG, e ele é um bom ponto de partida para auditar site e aplicativo, sem esquecer que o mundo é híbrido; ele não é mais físico nem digital, e sim uma mistura de ambos.
- Legenda e transcrição em tudo. Reunião, vídeo, evento, treinamento. Com fonte grande e bom contraste. Áudio claro, com pouco ruído de fundo. Isso serve a quem ouve menos, a quem está no metrô e a quem não fala o idioma nativamente.
- Mais de um canal. Texto, voz e imagem, com atendimento humano acessível. Chatbot e aplicativo sem alternativa expulsam justamente quem tem mais dificuldade e mais dinheiro para gastar em conveniência.
- Sem pressa e sem armadilha. Formulários que não expiram em dois minutos, linguagem simples, confirmação antes de ações irreversíveis, opção de voltar. Reduz erro e reduz golpe.
- Espaço físico revisado. Iluminação uniforme, piso sem desnível nem reflexo, sinalização com contraste, lugares para sentar, banheiros e balcões em altura adequada, acústica que permita conversar. São ajustes baratos quando entram na reforma e caros quando viram processo. Esses processos, inclusive no futuro, irão ajudar os humanoides e tecnologias.
- Ajustes no trabalho, sem exigir declaração. Ergonomia, jornada flexível, ferramentas assistivas e formação continuada disponíveis para qualquer colaborador, sem que ele precise se expor ou apresentar um laudo para pedir. Somando a isso a requalificação, especialmente com a chegada da IA, a empresa mantém talento experiente por mais tempo e, além de ajudar qualquer pessoa da empresa.
- Teste com quem usa. Coloque pessoas com mais de 60 anos e pessoas com deficiência para usar seu produto antes do lançamento e pague por isso. Uma hora de teste real ensina mais que um checklist. Elas participarem desde o início da criação, dos feedbacks, fará com que criem novos produtos, novos mercados e processos, e o custo nem será tão elevado.
O que eu levaria para a diretoria
Acessibilidade não deve ser lembrada apenas nas datas relevantes. Deve ser uma métrica de qualidade do produto, do atendimento e do ambiente de trabalho. As empresas que tratarem isso como infraestrutura vão atender melhor uma população que só cresce, e ainda, de brinde, vão atender melhor todos os outros.
O envelhecimento é o único cenário em que quase todos nós vamos chegar, cada vez mais e com qualidade. A pergunta é se, quando chegarmos, os produtos e as empresas que estamos construindo hoje vão nos deixar participar.
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